Sob O Afeto Do Nosso Avô Guardião

everest-759

Por Sripad Bhakti Kamal Tyagi Maharaj, México, julho de 2017.

sri-chaitanya-vilasa-dhamani navadvipasrame sundare
sri-gauranga-vidhos tatha vraja-yunoh seva-sudha-sampadam

tanvan ganga-tate dayamaya-vibho sadhun samahladayan
sri-rupanuga-sampradaya-vibhavan udbhasayan bhasase
(*Sri Guru Prasasti, verso 7)

Nesse verso que Srila Gurudev compôs para Guru Maharaj, ele diz: “Na terra dos divinos Passatempos de Sri Chaitanya, em um belo ashram em Nabadwip, às margens do Rio Ganges, meu mais misericordioso mestre alegra os sadhus ao distribuir a fortuna do serviço de Sri Gauranga e do casal divino de Vraja. E ele fala de modo que ele melhora e ilumina a riqueza da Rupanuga sampradaya.” E isso é como numa casca de noz. A maneira como Srila Guru Maharaj é lembrado carinhosamente por todos os Gaudiya Vaishnavas.

Sentado em uma plataforma elevada, em sua varanda, olhando para o Ganges, na direção de Mayapur, o lugar do aparecimento de Mahaprabhu, falando do fundo de seu coração, de um lugar de meditação profunda sobre Srila Bhakti Siddhanta Saraswati Thakur, sobre a delegação pessoal de Sri Gauranga Mahaprabhu, Srila Bhakti Vinod Thakur, sobre o Sri Chaitanya-charitamrta, sobre o serviço a Sri Rupa, sobre o ideal exclusivo dado por Sri Rupa a essa sampradaya, e sobre a grandeza sem paralelo de Sri Gauranga Mahaprabhu, sentado firmemente na fundação do Sharanagati, do Sri Sri Prapanna-jivanamrta, em uma atmosfera de neblina, ele viu que o plano adhoksaja [transcendental] o tocou como uma neblina.

Intermitentemente cantando o Nome de Gaura Hari, e nos seus últimos Passatempos os Nomes de Dayal Nitai, e ao fazer isso sua representação era da mais alta dignidade, da mais alta qualidade, o maior encanto para os maiores sábios dos três mundos. Vibudha-kula-varenyam [adorado pelos sábios]. Paramahamsa-kula-varenyam [adorado pelos paramahamsas]. Para muitos acharyas nós dizemos: “Ele é um paramahamsa.”  Srila Gurudev disse que Srila Guru Maharaj é adorado pelos paramahamsas: yati-rājeśvara. Ele é o líder entre os líderes, o mestre dos mestres. Sadhun samahladayan [ele deleita os sadhus]. Ele deleita os sadhus de alto calibre, com sua representação da Rupanuga sampradaya. Falando de si mesmo, ele disse que cada expressão sua é de uma natureza pura: suddha sattva. “Cada expressão que eu digo é um chit-vilas puro.”

Então visuddha-sattva [aspectos da existência pura], chit-vilas [jogo espiritual], são termos de grande nuance em nossa sampradaya. Eles têm significados muito específicos, refinados. Mas em uma camada geral podemos apreciar que pessoas de grande calibre têm a maior apreciação por ele. Nós aspiramos pela capacidade de apreciar o que ele significou, o que ele representou para este mundo.

É como se fosse uma mina que nós apenas começamos a cavar. De fato que apenas começamos a localizar. O quão profunda, o quão substancial é sua representação do Gaura-katha [conversas sobre Gauranga] e o quão bem apresentada em estilo.

Gurudev escreveu:

varsayam vai sajala-jalado vadayan mandra-bherim
yadvad visve bhramati bahudha varidharan cha varsan

tadvad bhumau bhramasi saganair ghosayan gaura-gatha
nityam divyamrta-sukarunam tvam hi deva pravarsan
(Sri Guru Prasasti, verso 6)

Dizendo: “Assim como na estação das chuvas, das monções, as nuvens de chuva circulam pelo céu tocando seus tambores e derramando chuvas torrenciais muito pesadas, assim você, na companhia de seus associados se move neste mundo, e reverbera as glórias de Sri Gauranga. E dessa maneira você derrama o poder de sua misericórdia neste mundo.”

Srila Gurudev viajava de trem de Kolkata para Nabadwip e veio essa forte tempestade, fazendo barulho no teto do trem. Então ele se inspirou a compor este verso. Deixemos nossa percepção de todas as características da natureza: as montanhas, as nuvens, as árvores, os pássaros, deixemos todos nos mostrar, nos lembrar, apontar para o Gaura-gatha [glórias de Gaura] de nosso Param Gurudev, com a oração de que algum dia nós possamos ser capazes de apreciar o que ele representou.

Quando Gurudev foi pela primeira vez a Mauritius, ele foi à comunidade de devotos que vivia perto da segunda maior montanha daquela ilha, uma montanha com picos muito agudos, pedras gigantescas, uma aparência muito distinta, e quando Gurudev foi para seu aposento, ali ele teve uma visão muito feliz daquela montanha. E eles disseram a ele: “Você viu essa montanha?” E Gurudev disse: “Sim, Guru Maharaj já está aqui olhando todos, e eu vim aqui para oferecer meu respeito a ele. Essa bela montanha é Guru Maharaj.”

Guru Maharaj deu uma alegoria sobre o Monte Everest. Quando introduzimos a consciência de Krishna, dizemos às pessoas: “Cante o Nome de Krishna, se torne um devoto de Krishna, aspire alcançar Krishna” assim como vemos à distancia toda a extensão dos Himalayas, e o destaque para o Monte Everest, o maior pico. Mas se você começar a escalar os Himalayas quando chega lá em cima, você vai vendo muitos outros picos em volta, e aí Guru Maharaj diz: “Naquele lugar você começa a olhar em volta e pode encontrar um abrigo por ali, em alguma caverna. Nós na verdade nunca servimos Krishna, mas nossa meta mais alta é sermos assistentes dos associados Dele, no serviço deles a Krishna, e sob o refúgio e liderança deles nos ocupamos em serviço.” Ele compara a consciência de Krishna a encontrar abrigo em alguma caverna particular, em algum pico particular, perto do pico do Monte Everest. Então podemos dizer: “Vir ao abrigo de Srila Guru Maharaj, conseguir algum lugar nessa caverna, essa é nossa grande esperança e felicidade.”

Uma vez, em uma reunião familiar como esta, Srila Gurudev disse diretamente: “Todos que se iniciaram comigo já estão liberados. Por que? Vocês não sabem! Mas eu sei! Vocês não podem sentir isso, mas eu posso. Há uma razão, que é o afeto de meu Guru. O relacionamento entre um avô e um neto é muito doce. Então sabendo sobre o grande afeto que ele tem por seus netos, não tenho dúvida da benção espiritual de vocês.” E ao escutar isso todos ficaram boquiabertos.

Então Gurudev fez uma pausa, esperou um pouco, e disse: “Mas, eu sei que no momento todos vocês estão ocupados com alguma tolice, por isso não posso dizer quando a liberação virá a vocês. Mas em última instância eu vejo que é tudo como brincadeira de criança. Tudo será perdoado sob o afeto do nosso avô guardião.”

Pessoas ordinárias deste mundo, por causa de suas identificações corporais podem se tornar tão fanáticas sobre as raças, sobre as famílias, dinastias, e todas estas coisas. Se elas estão prontas para lutar e cometer violência para expandir seus grupos, suas linhagens, então quando temos tal herança espiritual, tal linha espiritual com tal dignidade infinitamente maior e bela, onde está nosso entusiasmo, onde está nosso zelo para declarar a glórias de nosso Guru-varga? Por que deveríamos nos curvar a todos esses equívocos sobre nação, raça, de identificações materiais? Nós somos a família de nosso Gurudev, de nosso Guru Maharaj. Esse é o nosso orgulho, nossa alegria. E por isso queremos ganhar recursos, alistar pessoas, e ter grande prazer em cantar a glória deles. Em nossa posição social atual, em nossa comunidade atual, em nosso destino superior, temos uma sempre fresca, nunca depreciante fonte de inspiração, sabedoria e felicidade.

Hoje é o dia de desaparecimento de Srila Bhakti Raksak Sridhar Dev-Goswami Maharaj, o que na cultura Vaisnava é conhecido como Viraha Mahotsav. E como Srila Gurudev geralmente dizia neste dia em referência a Srila Haridas Thakur, haridāsa āchila pṛthivīra ‘śiromaṇi’(Cc. Antya 11.97): Haridas era a joia deste mundo. Tāhā vinā ratna-śūnyā ha-ila medinī: mas agora sem ele, o mundo perdeu sua joia valiosa.

Devemos ressentir alguma perda de não ter aquela fonte fluente e fresca de seus grandes ensinamentos neste mundo. Mesmo assim, na falta disso, quando temos a oportunidade de intensamente nos lembrarmos dessas coisas, podemos sentir uma grande fonte  de felicidade. Esse processo é um teste necessário no caminho espiritual. Qual tipo de teste devemos passar? Guru-mukha-padma-vākya chitete kariyā aikya āra nā kariha mane āśā, o que foi expresso pela boca de lótus de Gurudev, quero fazer meu coração uno com isso. E não tenho nenhum outro interesse ou aspiração. E é nessa situação que somos testados a respeito deste desejo.

Se essa palavra foi preservada e nos foi estendida, se isso é o guia de nossa vida ou não, se nós estamos confundidos pela sempre nova propaganda da sociedade materialista na qual vivemos, ou distraídos por algum outro tipo de assim chamado ‘ideal espiritual’, esse Festival é uma ocasião para nos reconectarmos à fonte novamente, novamente escutar, novamente nos banharmos nessa mais purificante representação de Guru e Gauranga que tão graciosamente foi preservada e estendida a nós pela geração de Ashram Maharaj, e tantos outros que vieram ao Math nos anos 80, e gravaram e distribuíram o que Srila Sridhar Maharaj deu para o mundo.

E eu também escutei de Devashis Prabhu sobre quando ele disse a Gurudev: “Eu acho que teria sido tão maravilhoso se eu tivesse vivido com você e com Srila Guru Maharaj no Math, há muitos anos atrás. Eu queria ter nascido antes!” E Gurudev riu e disse: “Não! Guru Maharaj era muito estrito, ninguém conseguia ficar na época dele.” E foi pelo humor sem paralelo de rendição de Srila Govinda Maharaj, que pôde satisfazer aquele padrão, e sua grande compaixão e natureza paciente, que ele fez possível a graça de Guru Maharaj ser estendida para todo o mundo. Primeiro por tantos anos na Índia, depois com os devotos ocidentais que foram bater à porta de Guru Maharaj.

E eu penso: “O que pode ser melhor do que isso? Nós temos a representação mais polida, mais refinada, do ideal mais elevado em Srila Sridhar Maharaj, e temos o humor mais compassivo, mais liberal em Srila Govinda Maharaj. Esse é um arranjo extraordinário feito por Mahaprabhu e Nityananda Prabhu.” Como Prabhodananda Saraswati disse: 

prasārita-mahā-prema-pīyūṣa-rasa-sāgare
chaitanya-chandre prakaṭe yo dīno dīna eva saḥ
(Chaitanya Chandramrta, 36; Prapanna-jivanamrta 8.22) 

“Agora Mahaprabhu veio, e espalhou o néctar de Seu amor, de Sua graça, por todos os lados. Qualquer um que não consiga isso, ele realmente é o mais indigente.”

A expressão mais magnânima foi expressa, e sentimos assim. Essa combinação de Gurudeva e Guru Maharaj é a mais misericordiosa. E como Gurudev sempre dizia: “Agora temos que utilizar nossa fortuna.” Sob a liderança daqueles que ele apontou para esse propósito como você (Ashram Maharaj), na companhia de todos que participam nesse templo. Assim estamos felizes na companhia de todos vocês. Jay Srila Bhakti Raksak Sridhar Dev-Goswami Maharajer Tirobhav Mahotsav ki jay! Gaura Bhakta-vrinda ki Kay! Hari-nam-sankirtan ki Jay!

* Sri Guru Prasasti, versos 6 e 7: composto por Srila Govinda Maharaj no 61˚aparecimento de Srila Sridhar Maharaj

*Vibudha-kula-varenyam: Verso de um dos Pranam Mantras compostos por Srila Govinda Maharaj em homenagem a Srila Sridhar Maharaj

Transcrito de: https://www.youtube.com/watch?v=V7Ko1s_IrAc&t=630s

Foto: https://indianexpress.com

Sri Gundicha Marjan Lila Rahasya

Gundicha-Temple-in-Puri

Śrīla Bhakti Siddhānta Saraswatī Ṭhākur explica o segredo por trás da limpeza do Templo de Guṇḍichā.

Guṇḍichā Mārjan Līlā Rahasya

O segredo por trás do Passatempo da limpeza do templo Guṇḍichā

Uma tradução para o inglês do comentário de Śrīla Bhakti Siddhānta Saraswatī Ṭhākur sobre o Śrī Chaitanya-charitāmṛta: Madhya-līlā, 12.135.

Através deste Passatempo, o Jagad-guru Śrīman Mahāprabhu está ensinando que se uma alma afortunada deseja sentar Kṛṣṇa no altar de seu coração, então eles devem primeiro limpá-lo de toda contaminação; tornar o coração impecavelmente limpo, pacífico e resplandecente de devoção é obrigatório. Se algum arbusto espinhoso, erva daninha, poeira ou areia—anarthas—permanecem dentro do campo do coração, então o Senhor, o recipiente final de todo serviço, não pode estar sentado ali. Contaminação e lixo no coração significam anya-abhilāṣ (desejos externos), karma (ação mundana), jñān (conhecimento especulativo), yoga e assim por diante. Srila Rupa Goswami Prabhu disse:

anyābhilāṣitā-śūnyaṁ jñāna-karmādy-anāvṛtam
ānukūlyena kṛṣṇānuśīlanaṁ bhaktir uttamā

(Bhakti-rasāmṛta-sindhu: 1.1.11)

Onde quer que a propensão natural e eterna da alma à devoção tenha sido coberta por desejos não relacionados à devoção, como o conhecimento especulativo, a ação mundana, o yoga, o ascetismo ou qualquer mentalidade desfavorável à devoção, a devoção pura não está presente. E sem devoção pura, que é por natureza puramente espiritual, Kṛṣṇa não aparece.

Desejo externo: “Enquanto eu permanecer neste mundo, satisfarei meus sentidos exclusivamente.” Esse tipo de desejo básico, como um ramo espinhoso, dilacera a tenra propensão da alma pura à devoção exclusiva (kevala-bhakti). Ação mundana: “Através da piedade, sacrifício, caridade e austeridade, desfrutarei dos prazeres deste mundo e dos planos superiores, como Svarga.” Tal ação egoísta é como pó. No turbilhão do ciclo do karma, os montes dessa poeira, isto é, os desejos, cobrem o espelho imaculado e claro de nossos corações. Os desejos de realizar ações boas e más, como incontáveis montes de poeira, contaminaram os corações de almas que são contrárias ao Senhor por numerosos nascimentos, e assim o desejo por atividades mundanas não deixou o coração dessas almas. As almas que são contrárias ao Senhor pensam: “Parece que através da ação, os espinhos presentes dentro da ação podem ser removidos”, mas isso é um equívoco; aqueles que são convencidos por isso simplesmente se enganam.

Como quando um elefante afunda seu corpo na lama novamente depois de banhá-lo, o desejo de ação mundana não é dissipado pela realização de ações mundanas. Somente através da devoção pura todas as dificuldades da alma são dissipadas. É então que o altar do coração puro da alma se torna um lugar adequado para o Senhor descansar. É por isso que um devoto-poeta cantou: “Bhaktera hṛdaye sadā Govindrera viśrāma: o coração do devoto é sempre um lugar de descanso para Govinda”. O Senhor, portanto, não aparece no coração de tais almas desafortunadas, que orgulhosamente se consideram libertadas [quando na verdade não o são]. É por essa razão que Srī Gaurasundar não guardou palha, poeira, areia e outras formas de lixo mesmo dentro do complexo do Templo do Senhor, mas sim os jogou do lado de fora usando Sua própria roupa externa—para que todo esse lixo não entrasse no templo novamente, nem com a ajuda de uma tempestade.

Muitas vezes, mesmo quando a ação mundana, o conhecimento especulativo e assim por diante, foram dissipados, formas sutis de contaminação permanecem dentro do coração. Elas podem ser comparadas a kuṭināṭi, pratiṣṭhāśā, jīva-hiṁsā, niṣiddhāchār, lābha, pūjā e assim por diante. Kuṭināṭi significa duplicidade. Pratiṣṭhāśā significa desejo por honra mundana—”Que o ignorante me chame de uma grande alma por causa de minha adoração solitária e impostura.” Pratiṣṭhāśā significa desejo de ser reconhecido como um ‘devoto’ ou ‘Avatār’ ao mostrar uma reflexão pervertida das emoções divinas, tais como sintomas artificiais de êxtase dentro de um coração duro, a fim de satisfazer os desejos egoístas de gozo mundano. Jīva-hiṁsā significa hesitação ou avareza sobre a pregação da devoção pura; māyāvādīs permissivos, materialistas e desfrutadores; e falar de modo a manter a atenção de tais pessoas. Lābha e pūjā significa viver dos Nomes do Senhor, mantras, Deidades ou Bhagavat em nome da religião, enganando os ignorantes e acumulando riqueza, honra e assim por diante. Niṣiddhāchār significa associar-se com o sexo oposto e não devotos de Kṛṣṇa, como materialistas, especuladores e desfrutadores.

Srila Gaurasundar primeiro varreu grandes montes de areia, palha, poeira, e assim por diante, que se acumularam durante muitos dias, e depois depois de limpar cada área do Templo uma segunda vez com vassouras e água, começou a esfregar o Templo e o altar do Senhor com o pano seco que Ele vestia, para que nenhuma mancha sutil permanecesse em nenhum lugar.

Depois de varrer tudo, limpar, esfregar, e assim por diante, não havia vestígios de partículas de poeira ou manchas sutis dentro do Templo, que não estava apenas impecavelmente limpo, mas também suavemente fresco, ou seja, o coração do praticante se tornou livre do peso da dor semelhante a um deserto escaldado pelo sol—livre das chamas do fogo das três misérias produzidas pelo desejo de desfrutar do mundano (ādhyātmik-tāp: misérias causadas pelo corpo e pela mente; adhibhautik-tāp: misérias causadas por outros; e adhidaivik-tāp: misérias causadas pelos deuses). De fato, quando os desejos por prazer e liberação—todos os desejos externos, esforços mundanos, conhecimento especulativo, yoga e assim por diante—são dissipados do coração do praticante e a propensão da alma à devoção pura se manifesta, tal paz e suavidade refrescante aparecem naturalmente.

As almas ignorantes não entendem que muitas vezes, mesmo quando todos os desejos egoístas foram dissipados, uma mancha sutil ainda permanece dentro de um canto desconhecido do coração: o desejo por liberação. O que falar do desejo dos impersonalistas por sāyujya-mukti (a liberação de se fundir no Brahma), Śrīman Mahāprabhu lavou com Suas próprias roupas até mesmo as manchas sutis do desejo pelas outras quatro formas de liberação [sālokya: residir na morada do Senhor, sāmīpya: estar na presença do Senhor, sārūpya: ter uma forma como a do Senhor e sārṣṭi: ter opulência como a do Senhor].

Dessa forma, adotando a mentalidade de uma alma para o bem-estar de todas as almas, Srī Gaurasundar, como Jagad-guru, ensinou pessoalmente como um praticante deveria, com grande entusiasmo, ao cantar em voz alta o Nome de Kṛṣṇa, limpar seu coração por Kṛṣṇa para fazer do coração um lugar para os prazerosos Passatempos do Autocrata Śrī Kṛṣṇa e ser capaz de amorosamente gratificar os sentidos de Kṛṣṇa.

yadyapyanyā bhaktiḥ kalau kartavyā,
tadā kīrtanākhya-bhakti-saṁyogenaiva

(Krama-sandarbha-ṭīkā on Śrīmad Bhāgavatam 7.5.23–24)

[“Embora as outras oito práticas de devoção devam ser realizadas durante a Kali-yuga, elas devem ser realizadas em conjunto com kīrtan.”]

Śrīman Mahāprabhu aproximou-se de cada devoto, segurou-lhes as mãos e ensinou-lhes como limpar o Templo. Ele elogiou os devotos que estavam servindo bem e como o Senhor adornado com o coração Daquela que é a personificação do cumprimento dos desejos de Kṛṣṇa—Sri Rādhā, Ele benevolentemente reprovou aqueles cujo serviço não estava à altura de Seu padrão, pegou os pelas mãos, e ensinou-lhes a maneira correta de servir a Kṛṣṇa. Não só isso, Ele também instruiu e inspirou os devotos de coração puro que foram dedicados ao Absoluto e proficientes em servir de acordo com Seus ensinamentos a executar o trabalho de um Āchārya para as almas avessas ao Senhor.

tumi bhāla kariyāchha, śikhāha anyere
ei-mata bhāla karma seho yena kare

(Śrī Chaitanya-charitāmṛta: Madhya-līlā, 12.117)

[Aos devotos cuja limpeza Ele aprovou, o Senhor disse: “Você fez bem. Ensine isso aos outros para que eles também tenham um bom desempenho dessa maneira.”]

Além disso, [o Senhor ensinou que] alguém se tornará querido do Senhor na medida em que puder remover as impurezas de seu coração e mantê-lo limpo, e Ele prescreveu a prática pacífica do serviço a Hari-Guru-Vaiṣṇava para aqueles que não ainda completaram o processo de anartha-nivṛtti (a purificação dos males).

Texto e imagem originalmente publicados em: https://premadharma.org/sri-gundicha-marjan-lila-rahasya/