Quando Prejudicamos Nossa Alma

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Por Sri Vishakha Didi, Brasil, Junho de 2018.

A ofensa mais séria, a principal, é ofender os Vaisnavas, os devotos. E esse tema é um ponto de confusão. Vemos que os devotos têm ideias diferentes do que significa ofensa.

De fato a palavra que se refere a ofensa no Padma-purana, onde estão as 10 ofensas ao Nome, é sadhu ninda. Ninda significa criticar; criticar o sadhu. Então ofensa ao Vaisnava significa se nós nutrimos sentimentos hostis; expressos ou não expressos verbalmente.

Nos é dito que na Kali-yuga o pecado que é cometido na mente não conta. As almas da Kali-yuga têm essa permissão porque são muito caídas. Em eras prévias, você teria que pagar pelos pecados cometidos na mente. Mas na Kali-yuga se tivermos que pagar pelos pecados que cometemos na mente, não vamos sair daqui!

Mas Gurudev disse que Vaisnava-aparadha é de uma categoria diferente, porque não pertence ao plano kármico, mas ao plano da alma. É algo que pode prejudicar sua alma. Então ofensa significa isso mesmo: você ter uma mentalidade crítica, ofensiva, ter sentimentos ruins, de inveja, em relação a um Vaisnava.

Às vezes alguns devotos pensam: “oh! Eu derrubei a xícara daquele devoto e cometi uma ofensa! Eu não lavei as roupas dele adequadamente, ou, eu disse algo que o irritou, e ele gritou comigo.” Mas esses problemas são desse Vaisnavas de fato. Srila Sridhar Maharaj declarou isso abertamente. Ele disse que um madhyam-adhikārī [devoto em nível intermediário] ainda tem alguns anarthas [coisas indesejáveis, interesse separado] com os quais ele tem que lidar. E ser um madhyam-adhikari não é uma coisa pequena. É muito. Mas eles ainda têm anarthas, então eles têm algum ego, eles ficam irados com coisas que já não deveriam estar irados. Assim, para o propósito da harmonia tentamos manter as pazes com todos. Se fizemos algo que chateou alguém, podemos pedir desculpa. Apenas para manter a paz. Mas não significa que cometemos uma séria ofensa, que eu vou para o inferno se não cair aos pés dele e implorar perdão.

Pergunta: E se o Vaisnava não aceita a desculpa?

Resposta: Então o que você pode fazer? Aí é um problema dele. Krsna está lá, Gurudev também. Se há algo errado, Eles vão retificar. Se nós fomos maltratados de alguma maneira, Krsna vai retificar isso. Srila Sridhar Maharaj disse que nós não deveríamos, sob nenhuma circunstância, trabalhar para estabelecer nossa posição. Não precisamos fazer isso. Krsna vai fazer isso. Nós temos que cumprir nossa obrigação. Se os outros não o fazem, não podemos ficar absorvidos nisso. Se irritamos o Vaisnava, nossa obrigação é pedir desculpa. Se eles vão aceitar ou não, esse é um problema deles. Nós cumprimos nossa obrigação. E esquecemos disso. Não será saudável ficar com isso em nossa mente, pensando no assunto. Daí vamos começar a pensar mal sobre aquele Vaisnava porque ele não aceitou nossas desculpas e isso não vai ser bom para nós.

Temos que manter uma visão positiva dos Vaisnavas sob todas as circunstâncias. Eu tive muita experiência de conflitos com devotos sêniores, e Acharyas, e sempre percebi que minha obrigação era apenas corrigir meu comportamento, mesmo quando eles publicamente me humilharam, seriamente. Vi que depois de algum tempo Krsna retificou a situação. Depois de algum tempo. Eu tive que ser paciente. Não posso me promover, ou me explicar ao mundo inteiro.

Uma armadilha que vamos ter que lidar, é esse desejo de que todo mundo goste de nós, nos entenda. Talvez Krsna queira nos usar como o bandido. Estamos prontos para isso? Talvez Krsna queira nos usar como o bode expiatório, aquele a quem todos odeiam. Estamos rendidos o suficiente para isso? Como Judas que às vezes é descrito como o associado mais íntimo de Jesus.

Então temos que tentar entender qual é nossa obrigação, e cumpri-la. E claro, haverá um grupo pequeno de pessoas com as quais vamos conversar intimamente. Não podemos nos explicar para todo mundo. E em muitos casos, se nós explicarmos tudo para todo mundo, isso pode comprometer os outros. E aí vai ficar muito complicado. Se você tiver que explicar tudo, vai acabar tendo que revelar algo ruim que outro Vaisnava fez. E aí isso vai perturbar muitas pessoas. Então temos que apenas jogar fora pela janela essa tendência de queremos ser queridos e compreendidos por todos.

E outro ponto é sobre a gradação da ofensa. A ofensa vai ter sua reação de acordo com o sentimento ruim que tivermos, com a mentalidade crítica que tivermos. Qualquer forma de criticismo vai nos puxar para trás. Mesmo em conversas casuais que temos durante o dia, em nossos bate-papos, quando colocamos nossos pontos de vista materialistas sobre os devotos.

Tem uma aula de Gurudev que ele fala: “como podemos cantar Hari-nam, se passamos o dia falando mal dos Vaisnavas?” Então essa é uma categoria, e outra categoria é quando temos um sentimento ruim mesmo em nosso coração, que fica preso, não conseguimos nos livrar dele, sempre vai ter um rancor, uma mágoa. Isso é muito perigoso. Quando nós verbalmente vamos espalhando isso para os outros. Às vezes vemos pessoas que fazem uma campanha contra outras. “Essa pessoa fez algo muito ruim há 20 anos, e agora todo mundo precisa saber isso. Minha obrigação é informar todo mundo sobre as coisas ruins que esse Vaisnava fez.” E isso é verdade, acontece, vemos isso acontecer o tempo todo.

Isso é muito ruim. E se o sentimento ruim é muito severo, ele pode nos destruir. Essa ofensa é descrita como ‘A Ofensa do Elefante Louco’. Ela pode arrancar nossa trepadeira da devoção. Então temos que ter cuidado. E mesmo qualquer pessoa que tenha um pequeno grau de vaisnavata, mesmo devotos júniores, eles têm algo real em seus corações. Não precisa ser um alto Vaisnava. Srila Gurudev mencionou um Vaisnava que tinha uma posição muito alta na missão de Srila Saraswati Thakur, e depois ele se desviou de uma maneira horrorosa. Srila Gurudev disse que ele foi rude com seus irmãos. Havia devotos que eram júniores em relação a ele, e ele tinha sido rude com eles. E Gurudev disse que tudo começou com aquele humor de brincadeira, tipo essas piadinhas que se fazem. Pode começar com algo pequeno. E aí isso cresce. Gurudev então sempre falava sobre a importância de se evitar as ofensas aos devotos. Ele dizia: “eu só tenho medo de uma coisa, de Vaisnava-aparadha. Qualquer pessoa que eu veja que tenha um pouquinho de devoção, então tomo muito cuidado.” Srila Gurudev também costumava dizer: “nós não sabemos quem é o Vaisnava. Com nossos olhos carnais não conseguimos perceber quem é um Vaisnava real.”

Então somos cuidadosos com todos. E por isso Srila Govinda Maharaj colocou tanta ênfase no terceiro verso do Siksastakam: sermos mais humildes que uma folha de grama, tolerantes como uma árvore, oferecer honra aos outros sem esperar honra em retorno. Essa é a fórmula mágica. Se conseguirmos segui-la, será impossível cometermos qualquer ofensa.

E também podemos dizer que temos que seguir o lado positivo disso, que é apreciar o Vaisnava. Nós podemos nos resguardar de cair ao não criticarmos, e podemos fazer avanços positivos ao apreciarmos. Isso é essencial na prática do Vaisnavismo: desenvolver apreciação pelo Vaisnava. É uma definição do Vaisnava: aquele que pode reconhecer o vaisnavata nos outros. De acordo com o grau do nosso vaisnavata, vamos apreciar o vaisnavata nos outros. Nós vimos em Srila Govinda Maharaj, ele fazia as declarações mais extremas: “esse devoto está fazendo um serviço divino”. O que para nós parecia um sentimento exagerado de apreciação. Goswami Maharaj disse que sempre que ele ia ao Math, no começo dos anos 80, ele experimentava essa apreciação, esses elogios de Srila Govinda Maharaj e de Srila Sridhar Maharaj. E uma vez ele comentou com Srila Govinda Maharaj que talvez aquilo fosse demais. E Srila Gurudev disse: “você não entende o que é isso. Se eu realmente quero a misericórdia de Mahaprabhu então tenho que apreciar aqueles que já receberam essa misericórdia”. Esse é um sentimento real do coração, uma necessidade real.

Podemos dizer que essa é a qualidade mais fundamental de um Vaisnava: ser livre da inveja. O que significa estar livre da mentalidade crítica, e ter o humor de apreciação. Isso é fundamental. Então isso é mais progressivo. Ao invés do esforço consciente de evitar a crítica, desenvolver nossa apreciação pelos devotos. Passar por cima das faltas que vemos e talvez que experimentamos, e focar no lado brilhante daquele Vaisnava. Então trocas belas começam a acontecer. Expressamos apreciação pelos outros, isso aquece o coração deles, reflete de volta em nós, nosso capital devocional vai aumentar, e então expressamos mais apreciação, e uma bela sinfonia é construída nestas trocas tão belas. Porque nós nos ajudamos uns aos outros a progredir na consciência de Krsna assim.

E o inverso também é verdade se tivermos a mentalidade de criticismo com os outros, que vai fazer mal às outras pessoas. E depois essas pessoas falam coisas ruins a respeito de nós, aí falamos algo de novo contra elas, e isso leva todo mundo montanha abaixo muito rápido. Se ficarmos nos ofendendo vamos todos cair juntos.

Há o comentário de Srila Govinda Maharaj sobre por que quando Srila Swami Maharaj estava aqui todo mundo estava progredindo muito rápido,e depois de algum tempo as coisas estagnaram. Quando Srila Swami Maharaj veio para o ocidente não havia Vaisnavas, então eles não tinham como cometer Vaisnava-aparadha. Depois todos se tornaram Vaisnavas, e eles começaram a cometer ofensas uns contra os outros. E assim todos sofreram as consequências. Por isso temos que ser cuidadosos. Qualquer pessoa que tenha aceitado esse ideal em qualquer grau que seja, é um Vaisnava. Srila Gurudev disse que uma vez quando um dos irmãos de Srila Sridhar Maharaj o visitou em Nabadwip, ele disse: “estou pensando que todos os nossos irmãos espirituais são Vaisnavas. Talvez alguns deles sejam Vaisnavas irados, outros Vaisnavas cobiçosos, e assim por diante. Mas todos são Vaisnavas.” Gurudev disse que Guru Maharaj riu muito quando ele falou isso. E ele gostou desse ponto de vista, e ele usava o exemplo da porcentagem: talvez alguém seja 50% devoto, outro 1%, outro 30%, outro15%.

Pergunta: eu tenho um irmão espiritual muito avançado, mas vejo que a concepção do siddhanta dele está se desviando. O que posso fazer por ele? Devo falar com ele?

Resposta: depende do relacionamento que você tem com ele. Se você pensa que ele pode escutar de você, então acho que você pode falar com ele. Outra coisa, é que se você pensa que ele escutaria melhor de outra pessoa, de repente você pode falar com Ashram Maharaj para conversar com ele. Se nós tivermos algum poder para fazer algo, então devemos fazer. Mas se não temos, então o melhor que temos a fazer é dar o exemplo.

Alguns devotos vieram morar no templo de Soquel, mas não estavam indo aos programas, estavam se intoxicando, e deixando os cigarros por todo lado. E a Swarnangii Didi tentou conversar com eles, mas não teve muito efeito. O gerente do templo àquela época era Rshabdev, e ele era muito liberal. Então Swarnangii Didi foi falar com Srila Govinda Maharaj. Ela não queria dar detalhes para ele, então a pergunta dela foi a seguinte: “o que podemos fazer se estamos vendo alguém fazer algo de errado, mas essa pessoa não quer nos escutar?” E Srila Govinda Maharaj respondeu: “se eles te escutarem, fale com eles. Caso contrário deixe-os ir para o céu ou para o inferno”. E ele balançou a mão assim alto e de um lado para o outro. E a Swarnangii ficou muito surpresa com aquilo.

Nós perdemos energia quando ficamos muito preocupados com os outros. E nós precisamos de muita energia para nós mesmos, porque nós estamos nos afogando. E precisamos subir no barco. Então não podemos ficar muito preocupados sobre como os outros estão progredindo em suas vidas espirituais.

Mas se temos algum papel de liderança, ou de Acharya, então é nossa responsabilidade cuidarmos da vida espiritual dos outros. É uma coisa triste para mim quando vejo que nas comunidades se dá mais atenção às pessoas novas, que estão chegando, e os devotos mais velhos são meio que deixados de lado. E eles começam a desistir, a não querer frequentar mais. Existe uma maneira mais fácil de se fazer as coisas. Mas é mais difícil trazer de volta pessoas que perderam sua inspiração, que estão indo pelo caminho errado.

Srila Gurudev pensava assim, e ele comentou várias vezes isso a primeira vez que ele veio para o Ocidente. O quão feliz ele estava ao ver, claro, novas pessoas chegando, mas devotos antigos que haviam sido iniciados por Srila Swami Maharaj, e que haviam perdido sua fé mas estavam de volta. Ele ficou muito feliz de ver isso. E ele citou um verso, que está no Hari-bhakti-vilasa, que diz que é mais difícil reformar uma construção velha do que construir algo novo. Srila Gurudev era preocupado com isso. Um dos perigos que o Guru tem que lidar, é sobre ele ter mais preocupação com seus novos devotos do que com seus antigos irmãos espirituais.

De qualquer maneira temos que tentar entender o que está na esfera de nossas obrigações. E qual é minha capacidade. Então temos que trabalhar dentro disso. Sempre vemos pessoas indo pelo caminho errado, mas compreendemos que não podemos falar nada. Algumas pessoas que vejo, e penso: “ninguém pode fazer nada por ela. A única pessoa que poderia fazer algo é Srila Govinda Maharaj. Mas ele não está aqui.” Porque  eu sei que essa pessoa escutaria mais ninguém.” Então eu sinto que o que posso fazer é dar o exemplo. E se vierem me perguntar posso tentar dar um conselho.

E por fim, por mais que as pessoas estejam se desviando, eu também tenho os meus desvios. Preciso dar minha energia para me corrigir. Porque os outros estão indo por caminhos errados não significa que está tudo bem comigo. Às vezes nós sentimos esse tipo de prazer, de apontar os desvios dos outros, e pensar que estamos indo bem. Não significa isso. Talvez relativamente falando podemos estar em uma posição melhor. Mas o quão alto é o céu! O quanto ainda temos que progredir. Então não queremos gastar tanta energia com isso.

 

Sri Gundicha Marjan Lila Rahasya

Gundicha-Temple-in-Puri

Śrīla Bhakti Siddhānta Saraswatī Ṭhākur explica o segredo por trás da limpeza do Templo de Guṇḍichā.

Guṇḍichā Mārjan Līlā Rahasya

O segredo por trás do Passatempo da limpeza do templo Guṇḍichā

Uma tradução para o inglês do comentário de Śrīla Bhakti Siddhānta Saraswatī Ṭhākur sobre o Śrī Chaitanya-charitāmṛta: Madhya-līlā, 12.135.

Através deste Passatempo, o Jagad-guru Śrīman Mahāprabhu está ensinando que se uma alma afortunada deseja sentar Kṛṣṇa no altar de seu coração, então eles devem primeiro limpá-lo de toda contaminação; tornar o coração impecavelmente limpo, pacífico e resplandecente de devoção é obrigatório. Se algum arbusto espinhoso, erva daninha, poeira ou areia—anarthas—permanecem dentro do campo do coração, então o Senhor, o recipiente final de todo serviço, não pode estar sentado ali. Contaminação e lixo no coração significam anya-abhilāṣ (desejos externos), karma (ação mundana), jñān (conhecimento especulativo), yoga e assim por diante. Srila Rupa Goswami Prabhu disse:

anyābhilāṣitā-śūnyaṁ jñāna-karmādy-anāvṛtam
ānukūlyena kṛṣṇānuśīlanaṁ bhaktir uttamā

(Bhakti-rasāmṛta-sindhu: 1.1.11)

Onde quer que a propensão natural e eterna da alma à devoção tenha sido coberta por desejos não relacionados à devoção, como o conhecimento especulativo, a ação mundana, o yoga, o ascetismo ou qualquer mentalidade desfavorável à devoção, a devoção pura não está presente. E sem devoção pura, que é por natureza puramente espiritual, Kṛṣṇa não aparece.

Desejo externo: “Enquanto eu permanecer neste mundo, satisfarei meus sentidos exclusivamente.” Esse tipo de desejo básico, como um ramo espinhoso, dilacera a tenra propensão da alma pura à devoção exclusiva (kevala-bhakti). Ação mundana: “Através da piedade, sacrifício, caridade e austeridade, desfrutarei dos prazeres deste mundo e dos planos superiores, como Svarga.” Tal ação egoísta é como pó. No turbilhão do ciclo do karma, os montes dessa poeira, isto é, os desejos, cobrem o espelho imaculado e claro de nossos corações. Os desejos de realizar ações boas e más, como incontáveis montes de poeira, contaminaram os corações de almas que são contrárias ao Senhor por numerosos nascimentos, e assim o desejo por atividades mundanas não deixou o coração dessas almas. As almas que são contrárias ao Senhor pensam: “Parece que através da ação, os espinhos presentes dentro da ação podem ser removidos”, mas isso é um equívoco; aqueles que são convencidos por isso simplesmente se enganam.

Como quando um elefante afunda seu corpo na lama novamente depois de banhá-lo, o desejo de ação mundana não é dissipado pela realização de ações mundanas. Somente através da devoção pura todas as dificuldades da alma são dissipadas. É então que o altar do coração puro da alma se torna um lugar adequado para o Senhor descansar. É por isso que um devoto-poeta cantou: “Bhaktera hṛdaye sadā Govindrera viśrāma: o coração do devoto é sempre um lugar de descanso para Govinda”. O Senhor, portanto, não aparece no coração de tais almas desafortunadas, que orgulhosamente se consideram libertadas [quando na verdade não o são]. É por essa razão que Srī Gaurasundar não guardou palha, poeira, areia e outras formas de lixo mesmo dentro do complexo do Templo do Senhor, mas sim os jogou do lado de fora usando Sua própria roupa externa—para que todo esse lixo não entrasse no templo novamente, nem com a ajuda de uma tempestade.

Muitas vezes, mesmo quando a ação mundana, o conhecimento especulativo e assim por diante, foram dissipados, formas sutis de contaminação permanecem dentro do coração. Elas podem ser comparadas a kuṭināṭi, pratiṣṭhāśā, jīva-hiṁsā, niṣiddhāchār, lābha, pūjā e assim por diante. Kuṭināṭi significa duplicidade. Pratiṣṭhāśā significa desejo por honra mundana—”Que o ignorante me chame de uma grande alma por causa de minha adoração solitária e impostura.” Pratiṣṭhāśā significa desejo de ser reconhecido como um ‘devoto’ ou ‘Avatār’ ao mostrar uma reflexão pervertida das emoções divinas, tais como sintomas artificiais de êxtase dentro de um coração duro, a fim de satisfazer os desejos egoístas de gozo mundano. Jīva-hiṁsā significa hesitação ou avareza sobre a pregação da devoção pura; māyāvādīs permissivos, materialistas e desfrutadores; e falar de modo a manter a atenção de tais pessoas. Lābha e pūjā significa viver dos Nomes do Senhor, mantras, Deidades ou Bhagavat em nome da religião, enganando os ignorantes e acumulando riqueza, honra e assim por diante. Niṣiddhāchār significa associar-se com o sexo oposto e não devotos de Kṛṣṇa, como materialistas, especuladores e desfrutadores.

Srila Gaurasundar primeiro varreu grandes montes de areia, palha, poeira, e assim por diante, que se acumularam durante muitos dias, e depois depois de limpar cada área do Templo uma segunda vez com vassouras e água, começou a esfregar o Templo e o altar do Senhor com o pano seco que Ele vestia, para que nenhuma mancha sutil permanecesse em nenhum lugar.

Depois de varrer tudo, limpar, esfregar, e assim por diante, não havia vestígios de partículas de poeira ou manchas sutis dentro do Templo, que não estava apenas impecavelmente limpo, mas também suavemente fresco, ou seja, o coração do praticante se tornou livre do peso da dor semelhante a um deserto escaldado pelo sol—livre das chamas do fogo das três misérias produzidas pelo desejo de desfrutar do mundano (ādhyātmik-tāp: misérias causadas pelo corpo e pela mente; adhibhautik-tāp: misérias causadas por outros; e adhidaivik-tāp: misérias causadas pelos deuses). De fato, quando os desejos por prazer e liberação—todos os desejos externos, esforços mundanos, conhecimento especulativo, yoga e assim por diante—são dissipados do coração do praticante e a propensão da alma à devoção pura se manifesta, tal paz e suavidade refrescante aparecem naturalmente.

As almas ignorantes não entendem que muitas vezes, mesmo quando todos os desejos egoístas foram dissipados, uma mancha sutil ainda permanece dentro de um canto desconhecido do coração: o desejo por liberação. O que falar do desejo dos impersonalistas por sāyujya-mukti (a liberação de se fundir no Brahma), Śrīman Mahāprabhu lavou com Suas próprias roupas até mesmo as manchas sutis do desejo pelas outras quatro formas de liberação [sālokya: residir na morada do Senhor, sāmīpya: estar na presença do Senhor, sārūpya: ter uma forma como a do Senhor e sārṣṭi: ter opulência como a do Senhor].

Dessa forma, adotando a mentalidade de uma alma para o bem-estar de todas as almas, Srī Gaurasundar, como Jagad-guru, ensinou pessoalmente como um praticante deveria, com grande entusiasmo, ao cantar em voz alta o Nome de Kṛṣṇa, limpar seu coração por Kṛṣṇa para fazer do coração um lugar para os prazerosos Passatempos do Autocrata Śrī Kṛṣṇa e ser capaz de amorosamente gratificar os sentidos de Kṛṣṇa.

yadyapyanyā bhaktiḥ kalau kartavyā,
tadā kīrtanākhya-bhakti-saṁyogenaiva

(Krama-sandarbha-ṭīkā on Śrīmad Bhāgavatam 7.5.23–24)

[“Embora as outras oito práticas de devoção devam ser realizadas durante a Kali-yuga, elas devem ser realizadas em conjunto com kīrtan.”]

Śrīman Mahāprabhu aproximou-se de cada devoto, segurou-lhes as mãos e ensinou-lhes como limpar o Templo. Ele elogiou os devotos que estavam servindo bem e como o Senhor adornado com o coração Daquela que é a personificação do cumprimento dos desejos de Kṛṣṇa—Sri Rādhā, Ele benevolentemente reprovou aqueles cujo serviço não estava à altura de Seu padrão, pegou os pelas mãos, e ensinou-lhes a maneira correta de servir a Kṛṣṇa. Não só isso, Ele também instruiu e inspirou os devotos de coração puro que foram dedicados ao Absoluto e proficientes em servir de acordo com Seus ensinamentos a executar o trabalho de um Āchārya para as almas avessas ao Senhor.

tumi bhāla kariyāchha, śikhāha anyere
ei-mata bhāla karma seho yena kare

(Śrī Chaitanya-charitāmṛta: Madhya-līlā, 12.117)

[Aos devotos cuja limpeza Ele aprovou, o Senhor disse: “Você fez bem. Ensine isso aos outros para que eles também tenham um bom desempenho dessa maneira.”]

Além disso, [o Senhor ensinou que] alguém se tornará querido do Senhor na medida em que puder remover as impurezas de seu coração e mantê-lo limpo, e Ele prescreveu a prática pacífica do serviço a Hari-Guru-Vaiṣṇava para aqueles que não ainda completaram o processo de anartha-nivṛtti (a purificação dos males).

Texto e imagem originalmente publicados em: https://premadharma.org/sri-gundicha-marjan-lila-rahasya/