Svarup Damodar: Onde se Pode Escutar Sobre Tal Concepção da Divindade?

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Desaparecimento de Srila Svarup Damodar

 

Qual qualificação sabemos ou temos para glorificar Srila Damodar? Nos sentimos os mais desqualificados e incapazes para falar da mais exclusiva e exaltada qualidade de serviço ao Senhor. O que podemos entender sobre uma coisa que é adhoksaja, aprakrta [além do alcance do cálculo material], enquanto nós estamos  nas profundezas de prakrti [matéria], da mente? Apesar de nossa desqualificação, a misericórdia sem causa de nosso Gurudev e dos Vaisnavas veio a nossas vidas, e nos fez saber algo sobre Svarup Damodar. Isso em si é uma coisa extraordinária. Como escutaríamos sobre tal pessoa, sobre tal serviço íntimo sendo oferecido ao Senhor?

mahāprabhu śrī-chaitanya rādhā-kṛṣṇa nahe anya
rūpānuga janera jīvana
viśvambhara priyaṅkara śrī svarūpa-dāmodara
śrī gosvāmī rūpa-sanātana [6]

[“Śrī Chaitanya Mahāprabhu de fato, é não diferente de Śrī Śrī Rādhā–Kṛṣṇa e é a própria vida dos seguidores de Śrī Rūpa. Śrīla Svarūp Dāmodar Gosvāmī, Śrīla Rūpa Gosvāmī Prabhu, e Śrīla Sanātan Gosvāmī Prabhu são os mais queridos de Viśvambhar.”]

No Chaitanya-charitamrta encontramos a parte que fala sobre Vallabha Datta, onde há o encontro de Vallabh Datta com Mahaprabhu e com Raghupati Upadhyay, que como um discípulo de  Madhavendra Puripad transmite a essência do conceito, e a forma extraordinária do amor divino que Mahaprabhu veio revelar neste mundo:

śrutim apare smṛtim itare bhāratam anye
bhajantu bhava-bhītāḥ aham iha nandaṁ
vande yasyālinde paraṁ brahma
(Cc 19.96)

[“Alguns vão favorecer os Vedas, outros os Puranas, outros estudam o Mahabharata. Por que? Por medo da existência. Mas eu  adoro Nanda Maharaj em cuja varanda o Supremo Brahman está brincando. O Brahman Ele mesmo está brincando na varanda de Nanda Maharaj.”]

Yasyālinde paraṁ brahma.  Esse sloka não fala Kṛṣṇa, ele diz: param brahma brinca na varanda de Nanda. Nós não compartilhamos dessa ideia que Krsna é uma manifestação  sad-guna do Brahman! Não! Ao contrário, o Brahman é um anga-jyotih de Krsna, é a refulgência de Kṛṣṇa. Então ele diz: “eu adoro Krsna Brahman, a suprema beleza, o supremo poder.” Como Gurudev falou: beleza é poder.

Em uma perspectiva, a beleza é maior que o poder. Mas a conclusão é que beleza é poder. A posição da beleza sendo sentida como central, então ela é luz, poder, energia, todas as qualidades vêm dela. Esse sentido do Brahman ele adora.

yasya prabhā prabhavato jagad-aṇḍa-koṭi-
koṭiṣv aśeṣa-vasudhādi vibhūti-bhinnam
tad brahma niṣkalam anantam aśeṣa-bhūtaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
(Sri Brahma-samhita: 5.40)

[“Eu sirvo Govinda, o Senhor original, cujo ilustre resplendor corporal é a origem do Brahma indivisível, inconcebível e ilimitado, dentro do qual inúmeros universos cheios de criações e opulências variegadas sem limites existem.”]

Então ele [Raghupati Upadhyaya] continua:

kaṁ prati kathayitum īśe
samprati ko vā pratītim āyātu
go-pati-tanayā-kuñje
gopa-vadhūṭī-viṭaṁ brahma
(Cc. Madhya 19.98)

[“A quem eu posso dizer, e quem vai acreditar, que o Absoluto caça as esposas dos vaqueiros nos bosques ao longo das margens do rio Yamuna?”]

De novo, não se fala em Krsna, mas em Brahma, que  está correndo atrás das esposas dos vaqueiros nas margens do Yamuna. Para quem posso dizer, e quem irá acreditar.

Normalmente vamos interpretar esse verso pensando que ele se refere aos jnanis, aos yogis, e às pessoas convencionais, que elas não podem apreciar rasa-vichar [conceito de rasa], e todas as coisas altas, inconcebíveis, como por exemplo que Brahma de fato é Krsna engajado nestes Passatempos. Essas pessoas pensam que esse homem imoral não é apropriado para ser adorado pelos sábios. Porque sabemos que todas essas coisas são muito difíceis de compreender. Sukadev Goswami nem mencionou o nome Dela, e agora os sadhus mais estritos e íntegros, que entendem sobre as leis do dharma, têm que reverenciar este fora da lei, esse menino brincalhão de vontade livre? Isso é difícil de acreditar. Quem vai acreditar nisso? Nós sabemos do Srimad Bhagavatam que até os sábios de Naimisaranya não têm condição de escutar sobre isso. Se é uma coisa que não pode ser dita nem por Sukadev Goswami, então a quem poderemos dizer isso? Nós não podemos entender, mas apenas nos simpatizar com esse sentimento, e pensar que há uma causa para isso ser dito.

Porém Guru Maharaj nos dá uma visão extraordinária desse verso, como ele indicou em um antigo artigo [este artigo foi publicado antigamente] que ele escreveu nos anos 30 e que foi publicado em inglês, chamado A Posição Pontífice de Madhavendra Puri, sobre essa parte quando Raghupati Upadhyaya diz: “A quem posso dizer, e quem vai me acreditar?” Nesse lugar particular Guru Maharaj vai em outra direção. Na conotação em que Gurudev disse que Abhai Babu [Srila A.C Swami Maharaj] se tornou Jagad Gurudev, aqui Guru Maharaj diz que quando Raghupati Upadhyaya falou: “a quem eu posso dizer, e quem vai me acreditar”, uma maneira como isso pode ser lido é: “agora vamos falar, agora vamos acreditar, porque Você chegou Chaitanyadev, eu estou vendo que Você é Radha-Krsna combinados, Você é aquele param Brahma! A quem eu posso dizer e quem vai acreditar, agora posso dizer, porque agora o mundo vai saber e escutar.” ‘Śyāmam eva paraṁ rūpaṁ’ purī madhu-purī varā’ vayaḥ kaiśorakaṁ dhyeyaṁ’ādya eva paro rasaḥ’ ( Cc 19.101) “A forma suprema é Śyamasundar; a suprema morada é Madhu Puri, a terra de Vrndavan; a idade em que o Senhor é o mais extraordinário é em sua juventude, sua adolescência; e o rasa original é madhura-rasa, o rasa mais elevado.”

Então encapsulando: os presentes únicos e distinguíveis que Mahaprabhu veio dar, saindo de Madhavendra Puri e representados por Raghupati Upadhyaya e os discípulos de Madhavendra Puri, agora todo o mundo vai receber essas coisas, agora eles vão saber, em todos os lugares.

Mahaprabhu tomou esse trabalho, começou essa distribuição. Mas quem entendeu isso completamente? Quem sabia o que estava realmente acontecendo? Quase ninguém. Nem as pessoas que estavam ali. Claro, elas sabiam que Ele era grandioso! (risos)

Mas o que se soube depois pela misericórdia de  Svarup Damodar, Das Goswami, Kaviraj Goswami, estas coisas eram totalmente desconhecidas, mesmo enquanto elas estavam acontecendo.

Quem é mesmo Mahaprabhu? Sabemos isso do Chaitanya-charitamrta. Onde conseguimos o Charitamrta? De Kaviraj Goswami. E onde Kaviraj Goswami conseguiu o Charitamrta? De Raghunath Das Goswami. E como Das Goswami chegou nesse amrta charit [Passatempos nectáreos]? Sob a liderança de Svarup Damodar. Quando Raghunath vem a Mahaprabhu: “svaruper raghu”, você será de Svarup. E desde essa época, Svarup Damodar deu suas anotações privadas para Raghunath Das Goswami. E de Raghunath elas chegarama a Kaviraj Goswami, que começa o Chaitanya-charitamrta com os versos de Svarup, os versos que vieram de suas anotações privadas [kadachar], não de um livro público:

rādhā kṛṣṇa-praṇaya-vikṛtir hlādinī śaktir asmād
ekātmānāv api bhuvi purā deha-bhedaṁ gatau tau
caitanyākhyaṁ prakaṭam adhunā tad-dvayaṁ caikyam āptaṁ
rādhā-bhāva-dyuti-suvalitaṁ naumi kṛṣṇa-svarūpam
(Cc Adi 1.5)

[“Radha-Krishna são Um, mas Eles Se dividiram em prol de Sua brincadeira divina em madhura-rasa-lila.”]

Isso vem da caneta de Svarup Damodar, que Krsna com o coração e a aura de Radharani se tornou Chaitanya Mahaprabhu. Apesar Deles serem eternamente Um, para que os Passatempos aconteçam, Eles existem como dois, e agora novamente Eles estão combinados como Sri Chaitanya. Essa conclusão mais essencial é revelada por Svarup Damodar. E:

sri-radhayah pranaya-mahima kidrso vanayaiva-
svadyo yenadbhuta-madhurima kidrso va madiyah
saukhyam chasya mad-anubhavatah kidrsam veti lobhat
tad-bhavadhyah samajani sachi-garbha-sindhau harinduh

(Sri Chaitanya-charitamrta: Adi-lila, 1.6)

[“Quando Krishna quis saber o quão profundamente Krishna-prema está presente no coração de Radharani, o quanto Ela o saboreia, como Ela serve a Ele, como Ela se sente separada Dele—quando Krishna queria saber tudo dessa maneira—Ele apareceu do oceano do ventre de Mãe Sachi Devi como Harindu: a lua dourada Sri Gauranga. Com o coração e a aura roubados de Radharani, Krishna Se engajou em provar o êxtase de Radharani (mahabhava) .”]

A causa interna do Avatar de Mahaprabhu, qual é o amor de Radharani, qual a glória do amor de Radharani, o que Ela sente ao Me ver, como é ver Minha forma, que tipo de felicidade Ela saboreia nisso. Querendo experimentar tais coisas, Ele tomou o coração e a aura Dela e veio. Essa é a concepção de Svarup Damodar. Ele compôs estas coisas.

Então mesmo o fato de que o Senhor tem um propósito interno para aparecer no mundo, isso é mencionado no Gita? No Bhagavatam? Onde vemos a ideia de existir uma função interna específica fora a função Dele no mundo? Difícil de encontrar. Sem dúvida podemos vê-la quando Krsna executa Seu lila, sem dúvida a satisfação interna Dele está lá. Esse é um conceito bem conhecido. Ou geralmente falando, por que o Senhor vem ao mundo por nós? O Senhor descende para trazer a paz ao mundo, estabelecer o dharma, destruir demônios, ajudar as pessoas boas, restaurar a ordem, todas estas coisas. Mas Ele teria um propósito só Seu? Que Ele tem alguma parte fresca e nova do infinito eterno que Ele agora quer mergulhar nisso, onde se escuta tal concepção do divino? Em qual sistema teológico? Isso é tão extraordinário.

Então não só para revelar a concepção, mas tal concepção da divindade, e ser o assistente principal através do qual isso é alcançado, essa é a posição de Svarup Damodar. Há um sloka no Chaitanya-chandramrta de Prabhodananda que faz um paralelo com a canção de Vasudev Ghosh: yadi, gaura nā ha’ta tabe ki ha-ita kemane dharitām de [Se Śrī Gaura não tivesse vindo, o que teria acontecido? Como manteríamos nossas vidas?]. Assim como nessa canção há um verso na composição de Prabhodananda, se você procurar vai encontrá-lo, nunca escutei nosso Guru-varga citando-o, mas ele está lá, e ele está escrito de uma maneira muito ‘organizada’, onde ele vai fazendo perguntas retóricas sobre o valor de: levantar a Terra do oceano Garbhodaka, o valor da destruição de demônios que estavam tentando conquistar o mundo, sobre o valor de estabelecer o dharma pelo mundo, sobre o valor de estabelecer a ordem entre os ksatriyas e outros grupos. Se não fosse Chaitanya e Seu presente de Krsna-prema, todas essas coisas teriam algum valor?

E se você olhar a interpretação de Saraswati Thakur ele fala de Nrsimhadev, Vamandev, Ramachandra, ele vai falando sobre os dasavatars em muitos lugares, qual seria o valor de todos eles se não fosse Chaitanyadev? Se não fosse pelo propósito definitivo e fundamental do todo, os princípios fundamentais diretivos de Chaitanyadev: amor divino, nada disso valeria à pena. Tudo isso vem adicionar escadas, joias, e outras partes àquele altar, àquela coroa. E isso veio ao mundo, foi espalhado, através do seva de Svarup Damodar. Viśvambhara priyaṅkara, ele é o mais querido de Mahaprabhu.

E nós não escutamos muito sobre a participação dele no Nadia-lila, apenas escutamos que ele estava lá. Em sua juventude seu nome era Puruṣottam Acharya, e ele cresceu em Nabadwip. Mas é dito que quando Mahaprabhu tomou sannyas, então ele também, logo depois, deixou Nadia, e tomou sannyas. Ele foi para Vārāṇasī em um estado ‘meio louco’. E só pensava em novamente conseguir abrigo aos pés de Mahaprabhu. Porque Mahaprabhu tinha ido para o sul, e exatamente para onde, e sobre quando Ele voltaria, ninguém sabia. Essa é uma distinção que Gurudev assinalou sobre o Gaura-lila, que quando Krsna deixou Vrndavan Ele poderia voltar a qualquer momento, e Ele irá, logo. Mas sannyasis nunca voltam para a casa deles. Então Svarup Damodar: “se Mahaprabhu não ficar aqui, também não vou ficar.” Também tomou sannyas e ficou esperando por Mahaprabhu. E ele fica sabendo que Mahaprabhu deu Sua palavra que iria retornar para Jagannath Puri. Quando, não se sabia, mas Ele havia sugerido isso para Sua Mãe Sachi. Mahaprabhu é mātṛ-bhakta-gaṇera prabhu hana śiromaṇi, [Cc. Antya 19.14], a gema das coroas daqueles que são devotados à suas mães. Kaviraj Goswami escreve isso. Então honrando Sua mãe ele concordou em viver em Puri. Ele não poderia residir com ela, mas Ele ficou em um lugar onde ela regularmente receberia notícias Dele. Dessa maneira sabia-se que Ele retornaria a Puri. Então Svarup Damodar veio, e ia residir em Puri.

Eles se encontram em Puri, e esse encontro é descrito muito belamente no Chaitanya-charitamrta. Quando Svarup Damodar chega, ele se curva para Mahaprabhu, e a oração que ele faz é muito bonita, escutamos esse verso de Gurudev e de Guru Maharaj, e a rima tem um som muito bom. O significado também, pelas palavras usadas, a construção gramatical, tem-se o som daya 13 vezes em um único sloka. Uma aliteração:

heloddhūnita-khedayā viśadayā pronmīlad-āmodayā
śāmyac-chāstra-vivādayā rasa-dayā cittārpitonmādayā
śaśvad-bhakti-vinodayā sa-madayā mādhurya-maryādayā
śrī-caitanya dayā-nidhe tava dayā bhūyād amandodayā
(Cc Madhya 10.119) 

São 13 daya, e daya significa graça, misericórdia. śrī-caitanya dayā-nidhe é um vocativo para nidhi [oceano]. Daya-nidhe, como ele chama Mahaprabhu, significa um reservatório de graça, o oceano de misericórdia. Esse som daya ecoa por todo o verso. E eu entendo como se fosse uma queda d’água, uma cascata fluindo para esse oceano: daya, daya. Bhūyād amandodayā, que esse fluxo me toque, flua em mim. E especificamente nessa linha mais conhecida, onde se usa a palavra udaya [de amandoya]. Udilo, como em udila aruṇa, significa se levantar, surgir. Então ele combina aqui udaya e daya. Essa frase foi muito usada por Saraswati Thakur em todas as pregações do Gaudiya Math.

Um princípio bem conhecido, nos tempos modernos, [em inglês], é que usa-se o sufixo free: sugar-free, dairy-free, gluten-free. Manda significa algo ruim, e amanda, é como se fosse negativity-free. Então fica: Sua graça que faz surgir algo que é harm-free [livre de prejuízo], uma misericórdia que é livre de prejudicar.

E isso nos deixa perplexos, porque ninguém pensa que a misericórdia é algo que nos prejudica. Qual o motivo de se qualificar a misericórdia como algo inofensivo então? Isso nos faz pensar que de fato muitas bênçãos são prejudiciais, quando elas fazem parte do ciclo do karma, desse bolo de 14 camadas de exploração. Como em toda família indiana que se diz: pitṛ-mātṛ-suhṛd-bhrātṛ, tudo veio pela misericórdia de meus ancestrais, ou do devata. Tudo vem como uma benção. Mas todas essas coisas são prejudiciais, elas nos enredam nesse plano do equívoco, nesse plano do dar e tomar, esse plano inapropriado para cavalheiros. Apenas a misericórdia de Chaitanyadev, a graça que faz surgir devoção pura, amor divino, apenas esse tipo de graça é graça harm-free [livre de danos]. Se diz que um sannyasi é nirāśīr nirnamas-kriyaḥ [um sannyasi não oferece reverências a ninguém, e nem abençoa ninguém]. No sentido clássico, isso é dito em alguns lugares, mas Srila Saraswati Thakur redefiniu isso dizendo que o sannyasi não se curva a nada desse mundo, e ele também não dará suas bênçãos para se atingir nada deste mundo.

Quando Mahaprabhu deu suas bênçãos, foi para Krsna-prema. Ele disse: “Kṛṣṇe matir astu”, se torne consciente de Krsna. Essa é Sua única bênção. (Final da 1ª parte)

 

 

*Nota: a palavra Brahma, muitas vezes utilizadas aqui, se refere a Bhagavat-tattva, à refulgência corporal de Krsna, e ao absoluto em geral. Diferentemente do Senhor Brahmā, que é o nome do primeiro ser criado no universo e o segundo Guru em nossa sampradaya.

*Este texto foi transcrito de: https://www.youtube.com/watch?v=c543zLDm24A&t=2s

 

 

Sri Ratha Yatra, o Começo da Rupanuga, Comemoração de 77 anos do SCSMath: Um Dia Muito Auspicioso

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Hoje é um dia muito especial em nosso calendário Vaisnava, é o dia do Ratha Yatra de Sri Jagannathdev. Ontem foi a comemoração do Sri Gundicha Marjan Lila, o desaparecimento de Srila Bhakti Vinod Thakur e de Srila Gadadhar Pandit. E como hoje é [um domingo] o dia que estamos todos juntos, podemos falar um pouco de cada uma destas coisas.

Mas para começar também podemos falar de uma outra coisa muito importante que não está nessa lista. Hoje é o dia em que pela primeira vez nosso Param Gurudev,  Srila Bhakti Raksak Sridhar Dev-Goswami  Maharaj veio para Sri Koladwip Dham e firmou sua residência ali onde hoje é chamado de Sri Chaitanya Saraswat Math.  Há algumas poucas diferentes maneiras pelas quais podemos precisar a data de quando o Math começou. Mas uma delas, é que foi hoje. E Guru Maharaj mesmo disse que o Ratha Yatra é um dia muito especial para se começar algo, para se fazer alguma viagem. É um dia ideal. No dia em que Krsna sai para uma viagem, um passeio, Ele vai escolher a  melhor data, claro! Então Krsna escolhe esse dia para sua viagem, e para qualquer empreendimento auspicioso, esse dia é indicado. De acordo a isso, Srila Guru Maharaj veio para Koladwip, e se estabeleceu ali, e começou o SCSMath, quando ele compôs este verso estabelecendo sua Missão, ou declarando seu propósito:

śrīmach-chaitanya-sārasvata-maṭha-vara udgītā-kīrtir jayaśrīṁ
bibhrat sambhāti gaṅga-taṭa-nikaṭa-navadvīpa-kolādri-rāje
yatra śrī-gaura-sārasvata-mata-niratā gaura-gāthā gṛṇanti
nityaṁ rūpānuga-śrī-kṛtamati-guru-gaurāṅga-rādhā-jitāśā

E podemos dizer que mais do que quando se adquire uma terra, ou quando se registra um documento, o começo de um empreendimento espiritual se dá com um ideal. Com o esclarecimento de um ideal espiritual ao qual se aspira. É assim que a realidade espiritual funciona, porque na realidade espiritual, tudo é infinito e nunca se atinge a meta. Tenho que tomar cuidado sobre onde dizer isso, mas aqui estamos todos alegremente reunidos em família e eu posso dizer: todas essas coisas com as quais estamos envolvidos, nós nunca iremos atingir. Nenhuma delas! Mas simplesmente estarmos eternamente tentando é em si a melhor vida que se pode levar. Haribol!!!!

Então Guru Maharaj estabeleceu seu ideal . O mais nobre, altivo, e digno ideal. E nesse verso ele declara o que é esse ideal, onde ele é executado, como, por quem, e assim por diante, dando um resumo sobre esse ponto. Então o lugar onde isso será cultivado é  Nabadwip Dham, mais especificamente Koladwip Dham, e mais especificamente, Gupta Govardhan. Esse lugar tem muito significado na aspiração eterna da Rupanuga sampradaya em seu serviço a Radha Govinda, e é especialmente descrito por Srila Rupa Goswami em suas composições.

Entao Srila Guru Maharaj escolheu seu lugar de acordo com a natureza do plano espiritual eterno. E assim ele veio a residir nesse lugar que parece estar na Terra. Em um ponto de intersecção, ele tomou seu assento como a base para o cultivo desse ideal. Em Nabadwip Dham. Nessa era de Kali não apenas a adoração de Radha e Krsna é o ideal, mas melhor ainda para o aspirante espiritual é render serviço à forma combinada Deles, Sri Chaitanya Mahaprabhu, que é o Senhor Ele mesmo. Se o Senhor Ele mesmo veio até você e te ofereceu um convite, uma oportunidade, e colocou um guia especial apenas para você, como você pode declinar? Isso seria inapropriado. Ele veio para expressar uma magnanimidade sem precedentes, de uma maneira tão doce que é sem paralelos. Como podemos resistir? Como isso não pode se tornar o foco central de nosso cultivo?

Esse ponto de contato inicial mais imediato através do qual nos conectamos ao infinito mais elevado, nosso foco máximo vai nele. Então esse ponto ele também deu. Queremos nos engajar no sanatan-dharma, no jaiva-dharma, no serviço eterno ao Senhor da maneira mais ampla. Mas o quão especificamente vamos? A maneira como isso foi ajustado é que como essa fonte se estendeu a nós, nós damos mais atenção ao que veio dessa extensão. Então Radha Krisna, esse plano original de Goloka Vrndavan, é tomado no sentido mais alto, mas também considerado acima de nossas cabeças, e a ele damos a menor atenção (!!). A maior atenção vai para Mahaprabhu, a forma que Radha Krsna assumiram para vir em prol de nosso benefício eterno. E ainda mais atenção do que a Mahaprabhu, é para Gurudev, a representação pessoal de Mahaprabhu. A forma viva que Mahaprabhu assumiu em nossas vidas para nos conectar.

Assim nos conectamos nessa linha, e o foco de nossos esforços para seguir, servir, reciprocar,  é ajustado de acordo à proximidade. Então similarmente se formos escolher um lugar, então mais do que Vrndavan, vamos escolher Navadwip, e dentro de Navadwip chegamos ao lugar onde Mahaprabhu expressou Sua misericórdia na extensão mais profunda. Esse lugar é conhecido como aparadha-bhanjan, o lugar onde Mahaprabhu perdoou os ofensores…[áudio foi cortado]  a bandeira da vitória no topo do Templo, e o Templo brilha às margens do Ganges…

Onde Uddhava fala em louvor às gopis de Vrndavan, depois de visitar Vraja Dham, logo depois do sloka em que ele ora para ser uma folha de grama, ou o que quer que seja no plano de Vrndavan, então depois disso, de novo ele diz: vande nanda-vraja-strīṇāṁ pāda-reṇum abhīkṣṇaśaḥ  [SB 10.47.63]. “Por que eu oro para ser uma folha de grama em Vrndavan? Porque eu quero sempre ter uma poeira dos pés das gopis em minha cabeça.” E quem são elas? yāsāṁ hari-kathodgītaṁ  punāti bhuvana-trayam, hari kathod gitam, a fala, a discussão, o tipo de exuberância, as canções exaltadas que elas têm sobre Hari, punāti bhuvana-trayam, estas coisas purificam os 3 mundos. Por que eu aspiro aos pés delas? Porque a fala delas pode purificar todos os 3 mundos. Então, a bandeira da vitória pode representar tal udgītā-kīrtir de Krsna.

Então, śrīmach-chaitanya-sārasvata-maṭha-vara: este Supremo Math. [Yatra Yasmin tatra vasanti timata]: o lugar onde os estudantes residem. Um lugar de estudantes dedicados. Que tipo de estudantes? Estudantes de Saraswati na linha de Sri Chaitanya: então Guru Maharaj deu muitos significados para esse saraswati: significa Bhakti Siddhanta Saraswati Thakur, significa a fala de Chaitanyadev Ele mesmo, saraswati significa o rio Saraswati, o condutor por onde todo o siddhanta de Vedavyas descendeu, então o todo da cultura Védica, o Om , gayatri, Purana, Upanisad, Bhagavatam, a  corrente de conhecimento que culminou em Chaitanyadev. Esse sarasvati. Assim como os sarasvatas-brahmans, a seção dos brahmans que é altamente louvada. Eles são os brahmans no sentido apropriado. São os brahmans que são devotos de Brahma (entendido com Bhagavan), Ele que é maior que o maior, e sendo sempre o maior em beleza, encanto, doçura e amor. Esse Brahma, esse Bhagavan.

Yatra śrī-gaura-sārasvata-mata-niratā: aqui são dois pontos. Sri Chaitanya Saraswat Math, e agora mata. Temos Math, e Mat. Math, o lugar onde os estudantes vivem. E Mat é a concepção que eles cultivam. O lugar e o conceito. O lugar sendo o lugar onde estão aqueles que aderiram à concepção. Então é um lugar físico? Sim! Mas quando essas pessoas estão lá! Significando que é isso que faz com que seja assim. Nirata: rata significa estar engajado, envolvido. Nirata significa nises, completamente. Aqueles que estão completamente engajados, envolvidos e dedicados a glorificar a concepção de gaura-sarasvata, a representação que Saraswati Thakur tem de Mahaprabhu, da Rupanuga. Este lugar, onde essas pessoas estão, e não só isso, gaura-gāthā gṛṇanti, onde eles estão espalhando as glórias de Chaitanyadev. Onde eles estão engajados em glorificar e nutrir a nobreza de Sri Gauranga e sua dádiva divina. E não sei se consigo me lembrar desse sloka agora, mas essa frase está lá no Math, gaura gatha. E há outro sloka que Gurudev escreveu sobre Guru Maharaj e que ele gostava muito, sobre a estação da chuva:

varsayam vai sajala-jalado vadayan mandra-bherim
yadvad visve bhramati bahudha varidharan cha varsan
tadvad bhumau bhramasi saganair ghosayan gaura-gatha
nityam divyamrta-sukarunam tvam hi deva pravarsan [6]
(B.S.Govinda, Sri Guru Prasasti)

Gurudev exalta Guru Maharaj desse jeito, ghosayan gaura-gatha [ proclamando as glórias de Sri Gaura]. “Durante as chuvas mais fortes do ano, quando as tempestades, os trovões das monções parecem tímpanos tocando em uma orquestra, quando as nuvens das monções estão vibrando seus tímpanos, você vibra Gaura-katha em todos os lugares, e dessa maneira você derrama não apenas água, mas misericórdia divina sobre todas as pessoas.”

E com qual ideal? Qual aspiração? nityaṁ rūpānuga-śrī-kṛtamati, guru-gaurāṅga-rādhā-jitāśā: eles têm a aspiração a Guru Gauranga Radha e Govinda. E ajita pode ser interpretado tanto como Krsna Govinda Sundar, como pode estar qualificando asa [o desejo] como ajita: esperança inconquistável. Nesse sentido, pegando uma dica do sloka que escutamos de Srila Gurudev em relação a isso:

asa-bharair amrta-sindhu-mayaih kathanchit
kalo mayati-gamitah kila sampratam hi
(Vilapa-kusumanjali: 102)

“Por tanto tempo tenho mantido essa esperança que é como um oceano de néctar.”

Esse tipo de esperança expressa por Das Goswami pode ser dita como inconquistável. E o que é de fato rūpānuga-śrī-kṛtamati: essa é a dedicação, a linha da aspiração dos Rupanugas. Se você não entende o que é um Rupanuga, Das Goswami é um Rupanuga! A vida dele vai te mostrar o que é um Rupanuga.

Então com tal aspiração pelo serviço a Guru, a Gauranga, Radha e Govinda na linha de Sri Rupa, os seguidores de Saraswati Thakur e Mahaprabhu estão engajados na glorificação. Assim Guru Maharaj  veio para o SCSMath nesse dia, e começou. Aos poucos os locais vieram, depois alguns monges vieram, depois algumas cobras. Ele dividiu a casa com elas. Ele vivia embaixo e as cobras viviam em cima. Ele não se incomodava com as cobras, nem elas com ele. Na metade do dia ele estudava os shastras, e na outra metade ele cantava Hari-nam. E algumas oferendas para Giriraj. Dessa maneira ele começou a viver ali. Aos poucos os devotos foram chegando e se juntando para ajudar e se engajar no gaura gatha grnanti: espalhar as glórias de Mahaprabhu. Em geral e em compreensão; em amplitude e em profundidade. E Guru Maharaj é conhecido por sua profundidade de compreensão, por seu aprofundamento da apreciação por Mahaprabhu. Podemos fazer um eixo de x e y, e um eixo é sobre espalhar e o outro sobre aprofundar. Um é sobre a largura, e o outro sobre a profundidade. Alguns podem precisar espalhar amplo, outros profundamente. E a contribuição de Guru Maharaj está nisso.

Então neste dia de aniversário nós oramos que esse ideal pelo qual ele chegou ali, e o ideal que ele queria para todos que chegassem no futuro para servir ali, que esse ideal possa tomar seu lugar em seus corações e possa  governar todos os nossos pensamentos, palavras e ações. Que nós possamos ter a conexão de serviço de seus queridos devotos e representantes, liderados por nosso amado Srila Gurudev, Om Visnupad Srila Bhakti Sundar Govinda Dev-Goswami Maharaj. Podemos dizer que Guru Maharaj estabeleceu todas essas coisa, mas quem nos mostrou como receber e como aplicar, como reciprocar tudo isso, foi Srila Gurudev. Ele é a personificação do SCSMath, sobre o que é ser um membro do Math. Que tipo de dignidade, de virtude. Todas as qualidades, atividades, o seva completo, enfim, tudo, ele nos mostrou. Nos lembrarmos da fundação do Chaitanya Saraswat Math, só podemos nos lembrar da personificação, que tornou possível nossa conexão. Sem ele nem podemos pensar o que seria de nós.

E esse dia do Ratha Yatra e da fundação do SCSMath, ambos têm sua conexão com a Rupanuga sampradaya. O dia do Ratha Yatra também é muito significante para a fundação da linha de Sri Rupa. Porque quando Rupa Goswami veio a Puri e observou o Ratha Yatra, observou o humor de Mahaprabhu, e os versos e expressões de Mahaprabhu naquela época, ele pode entender qual é característica do Krishna-lila, que tipo de separação divina de Krsna Ele estava saboreando. E em tal extensão que ele compôs um verso resumindo isso.

Rupa Goswami morava no siddha-bakul com Haridas Thakur nessa época. Um dia ele compôs o verso e o colocou no batente da porta, enquanto foi tomar banho. Nisso Mahaprabhu chegou para visitá-lo, Ele sempre o fazia quando ia tomar seu banho no mar. Ele e Svarup Damodar chegam e acham esse sloka. E ficam maravilhados: “que tipo de sloka é esse? Como ele foi composto?” Entao Svarup Damodar viu que Rupa Goswami entendia o que Mahaprabhu estava realmente cultivando internamente. Ninguém mais podia entender. E Mahaprabhu ficou em êxtase, cantando aquelas linhas, o corpo Dele expressou uma transformação extraordinária. Eles foram tomados por aquela expressão divina. E Rupa Goswami teve permissão de entrar nessa brincadeira interna,  no coração de Mahaprabhu.  Svarup Damodar disse: “Você deve ter dado Sua misericórdia a Rupa Goswami. Você não revela tudo a todo mundo. Mas a ele Você revelou.”

E Mahaprabhu viu a caligrafia de Rupa Goswami e a chamou de um cordão de pérolas. Tanto a composição, quanto o significado, até a forma, tudo tão belo: sri Rupa. Ordinariamente nós no ocidente pensamos que rupa significa forma. Mas na fala coloquial na Índia, a palavra rupa também significa beleza, um sinônimo para belo. E no Chaitanya-charitamrta também vemos isso. Por exemplo está escrito que alguém é rupavan, alguém que tem forma. Mas a conotação se torna: que a forma dessa pessoa é muito bela.

Então desde essa época Mahaprabhu encorajou os devotos a terem um respeito especial por Rupa Goswami. E ele mesmo organizou, e queria que todos os devotos com seus melhores desejos apoiassem Rupa Goswami. Que sua poesia fossem examinados pelos maiores experts, e que fosse aprovada. E daquele momento, essa corrente, podemos dizer, a Rupanuga dhara, está fluindo.

sri-gauranumatam svarupa-viditam rupagrajenadrtam
rupadyaih parivesitam raghu-ganair asvaditam sevitam
jivadyair abhiraksitam suka-siva-brahmadi-sammanitam
sri-radha-pada-sevanamrtam aho tad datum iso bhavan

(Srimad Bhakti Vinod Viraha Dasakam: 8–9)

 “O que foi dado ou revelado por Mahaprabhu, conhecido por Svarup Damodar, adorado por Sanatan, distribuído por Rupa Goswami, protegido por Jiva, adorado por Shiva, Suka, Brahma, você Bhakti Vinod, nos deu tudo isso: o serviço divino aos pés sagrados de Srimati Radharani, que é o que Srila Rupa Goswami distribuiu ao mundo.”

Então o dia do Ratha Yatra nos lembra da corrente de Sri Rupa emergindo no mundo. E depois essa corrente sendo levada pelo parampara.

Também ao mesmo tempo, o Jagannath Ratha Yatra, fora de nossa linha específica é um dia de muita alegria e celebração para todos os Vaisnavas, e até para todos os indianos. Em um sentido mais amplo, por que as pessoas celebram esse dia? Porque nesse maravilhoso dia o Senhor pessoalmente sai e dá seu darshan a todos. Um dia de graça sem precedentes. O Senhor sai para dar darshan a você. E alguma dessa doçura vem especialmente para os estrangeiros que não têm permissão de entrar no templo. Isso ficou conhecido assim, como uma coisa extraordinária. O Senhor sair para todas as pessoas, mas para aqueles que não têm permissão de entrar, podemos dizer: “sim! Nós apreciamos isso, muito!” Essa é a misericórdia sem causa do Senhor Jagannath, que tem tantos nomes, como Dina Bandhu, tão apreciativo de pessoas em condição muito pobre.

Guru  Maharaj conta uma história forte, do menino que nasceu de um estupro de um muçulmano que invadiu Orissa. Um menino que não teria nenhuma posição, nem na sociedade hindu nem na muçulmana. Então esse menino não tinha chance na vida. Seu único amigo era Jagannath. Ele se tornou um devoto desde cedo. Morava fora de Puri, mas o que ele tinha ele cozinhava para Jagannath. Então os pujaris notam o resto de kichuri na boca de Jagannath, e ficaram procurando quem estava fazendo kichuri para Jagannath. E quando acharam o menino concluíram que talvez Jagannath não comesse o que eles ofereciam, mas estava comendo o que o menino oferecia. A gente ouve muitas histórias de Jagannnath conversando com os pujaris, e comendo as oferendas, e sobre o relacionamento pessoal deles com Jagannath. Mas nesse caso é mais especial. Alguém de longe tem um relacionamento pessoal com Ele. Isso mostra o quão misericordioso é o Senhor Jagannath, o quão ansioso Ele está para reciprocar às oferendas de Seus devotos. Independente de casta, posição, qualquer coisa.

Então Ele sai do tempo e dá Seu olhar misericordioso para todos neste dia. Uma coisa maravilhosa.  Uma causa justa para Hari-nam-sankirtan! Para se cantar as glórias de Jagannath! Vemos no Chaitanya-charitamrta como belamente Mahaprabhu organizou os 7 grupos de pessoas, e as 14 mrdangas, e Hari-nam para preencher o céu, os Vaishnavas loucamente louvando e cantando sobre Jagannath. E daí profundas demonstrações da troca sutil entre Ele e Jagannath quando Ele  dançou. Depois disso chegam em Balagandi, um jardim, onde Mahaprabhu faz um intervalo, eles servem prasadam, e este é o momento em que todo mundo vem e oferece para Jagannath. Qualquer pessoa pode vir e oferecer. 360 graus em volta de Jagannath, e  200 metros de oferendas. Milhares e milhares de oferendas. E enquanto isso acontece, Mahaprabhu e os devotos descansam ali naquele jardim. E pelo arranjo de Sarvabhauma Bhattacharya, e dos devotos, o Rei Prataparudra vem e obtém a misericórdia de Mahaprabhu. Ele vem disfarçado, e começa a massagear os pés de Mahaprabhu, e começa a recitar o verso:

jayati te ’dhikam janmana vrajah

E quando ele chega no verso 9:

tava kathāmṛtaṁ tapta-jīvanaṁ
kavibhir īḍitaṁ kalmaṣāpaham
śravaṇa-maṅgalaṁ śrīmad ātataṁ
bhuvi gṛṇanti ye bhūri-dā janāḥ
(SB 10.31.9)

Mahaprabhu o abraça e diz: bhūri-dā janāḥ, bhūri-dā janāḥ! Você é o mais magnânimo, o mais generoso, a pessoa mais inspiradora. Há essa expressão nesse verso, bhūri significa abundância, e da significa dar. Então quem dá em grande abundância é chamado de bhūri-dā janāḥ. E aqui neste verso as gopis cantam sobre quem é qualificado para ser um bhūri-dā janāḥ, o mais magnânimo e gentil. E elas dizem: “aquela pessoa que fala sobre Krsna, aquela pessoa que nos dá Krsna-kathamrta”. Tava kathamrta, as pessoas que nos dão néctar na forma das discussões sobre Você. Tava kathamrta tapta jivanam, as pessoas que estão sofrendo golpeadas com o fogo de tapta (queimados), sujeitos a calores extremos. Então esse tapta são [trtabjala] as 3 misérias naturais do corpo, da mente, e dos desastres naturais. As pessoas sofrem tanto com essas coisas, que discutir sobre Você para elas é: amrta, aquilo que nos liberta da morte. [Trtabjala] é o que causa a morte, então essas coisas que me resgatam disso.

Mas em outra perspectiva dizemos tapta jivanam sobre as pessoas que estão sofrendo na vida, não um tipo de tap como sofrimento material, mas um sofrimento pela separação de Krsna. E essa é a mais alta camada de sofrimento. E nesse caso, o amrta é o  mesmo: discussões sobre Krsna.

Kavibhir iditam, e quando essas conversas acontecem, elas são reiteradas inclusive pelos maiores dos poetas, pelas maiores expressões. Ou de outra perspectiva, não há poesia maior, não há literatura maior, não há expressão verbal maior do que aquela que é reverberada sobre Você. Você é o tema verdadeiro, o Uttama sloka: aquele que é louvado pela poesia mais alta. Por que? Uma maneira de responder é porque os melhores poetas são Seus devotos, ou, podemos dizer que é  porque Você inspira os melhores poetas. Quando se tem o maior tema, as coisas que inspiram serão as melhores. Então de ambas perspectivas. Ele atrai os melhores para que eles O louvem. E isso também diz sobre o valor dessas pessoas.

kavibhir iditam kalmasapaham: e essa discussão pode nos livrar de todo kalmasa, que significa em geral pecado, mas mais amplamente poluição, ou contaminação, que de fato são a mesma coisa. Eu vi uma coisa sobre cultura pop, dizendo que a maneira como a palavra poluição é usada hoje em dia, em relação aos produtos químicos e ao ambiente, só existe nos últimos 100, 120 anos. E antes disso a palavra poluição apenas se referia a algo que era degradante na prática da religião. Algo que te desencoraja, ou que fala contra suas perspectivas religiosas, isso é poluição. E a partir daí ela começou a ser usada para se referir a problemas ambientais. Uma expressão subjetiva no início. E em sânscrito se estou certo, a palavra kalmasa tem dupla conotação: de pecado, algo interno, ou alguma poluição, uma contaminação sobre alguém. E apaham significa que a discussão sobre Krsna pode remover isso. Qualquer tendência ao pecado, ou qualquer consequência de algum pecado prévio, ambos são desenraizados, removidos através das discussões sobre Você.

śravaṇa-maṅgalaṁ: apenas escutar sobre Você produz em nós a melhor fortuna. Então o mais negativo é negado, e também o positivo é garantido. E esse maṅgalaṁ, como Guru Maharaj diria: “ā-viriṅchyād  amaṇgalam!” [SB 11.19.18] Tem uma aula dele em que ele se refere como se fosse um relâmpago reluzente. Quando ele fala desse sloka ele está falando sobre todos os desejos materiais, sobre as perspectivas mundanas, e sobre os enredamentos materiais, as formas de Maya, e a maneira como ele esmaga tudo isso é: “ā-viriṅchyād amaṇgalam!” Virinci é um dos nomes de Brahmā: então ā-viriṅchyād significa que até Brahmā, é amaṇgal, por assim dizer, é inauspicioso, negativo, é parte do engano, da má fortuna. Não pode ser qualificado como bom em nenhum sentido. É um verso descrevendo a existência material. A falha de tudo neste mundo é que tudo é temporal, e mesmo até a posição de Brahmā, é amaṇgal, não produz nada do seu interesse real. Então dizer sravana-mangala, escutar isso nos dá mangal, a conexão real com o eterno, com a consciência espiritual, com sad-chid-ananda, com chit-vilas puro. Substância espiritual pura. Então esse tipo de conexão nos é garantida.Como em outro ponto, o que significa sadhu? Sat, que significa coisas eternas. Quem não se engaja em cultivo de chit-vilas, no cultivo do plano espiritual, não pode ser chamado sadhu.

śrīmad ātataṁ, que significa espalhar, direcionando amplamente. Os raios do sol espalhados pelo céu, isso significa atatam. Diviva chaksur atatam. Então essa discussão sobre Krsna, ela está espalhando tal beleza. Então tem tal beleza, tal qualidade atrativa, uma bondade inerente. Um tal interesse real tem a capacidade de eliminar toda poluição ou contaminação negativas, e todas as consequências prévias de se estar em um estado contaminado.

Então algúem que nos dá esse tipo de substância são os bhūri-dā janāḥ, pessoas magnânimas, que podem realmente nos dar coisas boas. Quando Mahaprabhu escuta o Rei dizendo esse sloka, e Ele por sua vez começa a dizer: “bhūri-dā janāḥ, bhūri-dā janāḥ, o que Você me deu agora tem um valor extremo!” E aqui eu digo, que talvez em tal espírito Guru Maharaj escreveu sobre Bhakti Vinod Thakur.

guru-daṁ grantha-daṁ gaura-dhāma-daṁ nāma-daṁ mudā
bhakti-daṁ bhūri-daṁ vande bhakti-vinodakaṁ sadā [8]
(Śrī Laghu-chandrikā-bhāya: 1.8)

Que Bhakti Vinod Thakur é tal bhūri-dā janāḥ, ele nos deu essa abundância: o Sad-guru Bhakti Siddhanta Saraswati Thakur, os 100 textos em louvor à Devoção Pura, a concepção pura sobre devoção pura, a concepção pura do Hari-nam, O Dham sagrado de Mahaprabhu. Tudo isso ele nos deu! Isso é um bhūri-dā janāḥ! Então eternamente nos curvamos a ele. Essas são as palavras de Guru Maharaj. No dia do Ratha Yatra, essa graça ao o Rei que Mahaprabhu deu, nos lembra Bhakti Vinod Thakur.

Depois do almoço, o carro não se move. Eles trazem homens fortes, elefantes, e nada. Daí quando Mahaprabhu se levanta há uma distribuição de prasadam, alguns mendigos vêm, e Mahaprabhu fala que eles podem receber prasadam e escutar um Haribol! Entao chega Mahaprabhu com seus homens, os manda pegar as cordas Ele vai por trás e encosta a cabeça nos carros. O único que conseguiu mover Jagannath. O ponto é que Jagannath se move pelo desejo de seus devotos. E sem Mahāprabhu ele não queria seguir. Coisas que indicam os elementos do significado mais alto do Ratha Yatra: Kṛṣṇa voltando para Vrndavan através de Kuruksetra.

No Chaitanya-charitamrta elaboradamente se fala isso. Hoje lemos um artigo de Gurudev muito legal, que dá a essência desta camada de significado. Que quando Mahaprabhu está no Ratha Yatra, no coração Ele está em Kuruksetra, querendo trazer Krsna de volta para Vrndavan, assim como todos os moradores de Vrndavan foram a Kuruksetra com a esperança que Krsna voltaria a Vrndavan. ( Final da 1ª parte)