Sob O Afeto Do Nosso Avô Guardião

everest-759

Por Sripad Bhakti Kamal Tyagi Maharaj, México, julho de 2017.

sri-chaitanya-vilasa-dhamani navadvipasrame sundare
sri-gauranga-vidhos tatha vraja-yunoh seva-sudha-sampadam

tanvan ganga-tate dayamaya-vibho sadhun samahladayan
sri-rupanuga-sampradaya-vibhavan udbhasayan bhasase
(*Sri Guru Prasasti, verso 7)

Nesse verso que Srila Gurudev compôs para Guru Maharaj, ele diz: “Na terra dos divinos Passatempos de Sri Chaitanya, em um belo ashram em Nabadwip, às margens do Rio Ganges, meu mais misericordioso mestre alegra os sadhus ao distribuir a fortuna do serviço de Sri Gauranga e do casal divino de Vraja. E ele fala de modo que ele melhora e ilumina a riqueza da Rupanuga sampradaya.” E isso é como numa casca de noz. A maneira como Srila Guru Maharaj é lembrado carinhosamente por todos os Gaudiya Vaishnavas.

Sentado em uma plataforma elevada, em sua varanda, olhando para o Ganges, na direção de Mayapur, o lugar do aparecimento de Mahaprabhu, falando do fundo de seu coração, de um lugar de meditação profunda sobre Srila Bhakti Siddhanta Saraswati Thakur, sobre a delegação pessoal de Sri Gauranga Mahaprabhu, Srila Bhakti Vinod Thakur, sobre o Sri Chaitanya-charitamrta, sobre o serviço a Sri Rupa, sobre o ideal exclusivo dado por Sri Rupa a essa sampradaya, e sobre a grandeza sem paralelo de Sri Gauranga Mahaprabhu, sentado firmemente na fundação do Sharanagati, do Sri Sri Prapanna-jivanamrta, em uma atmosfera de neblina, ele viu que o plano adhoksaja [transcendental] o tocou como uma neblina.

Intermitentemente cantando o Nome de Gaura Hari, e nos seus últimos Passatempos os Nomes de Dayal Nitai, e ao fazer isso sua representação era da mais alta dignidade, da mais alta qualidade, o maior encanto para os maiores sábios dos três mundos. Vibudha-kula-varenyam [adorado pelos sábios]. Paramahamsa-kula-varenyam [adorado pelos paramahamsas]. Para muitos acharyas nós dizemos: “Ele é um paramahamsa.”  Srila Gurudev disse que Srila Guru Maharaj é adorado pelos paramahamsas: yati-rājeśvara. Ele é o líder entre os líderes, o mestre dos mestres. Sadhun samahladayan [ele deleita os sadhus]. Ele deleita os sadhus de alto calibre, com sua representação da Rupanuga sampradaya. Falando de si mesmo, ele disse que cada expressão sua é de uma natureza pura: suddha sattva. “Cada expressão que eu digo é um chit-vilas puro.” Então visuddha-sattva [aspectos da existência pura], chit-vilas [jogo espiritual], são termos de grande nuance em nossa sampradaya. Eles têm significados muito específicos, refinados.

Mas em uma camada geral podemos apreciar que pessoas de grande calibre têm a maior apreciação por ele. Nós aspiramos pela capacidade de apreciar o que ele significou, o que ele representou para este mundo. É como se fosse uma mina que nós apenas começamos a cavar. De fato que apenas começamos a localizar:  o quão profunda, o quão substancial é sua representação do Gaura-katha [conversas sobre Gauranga] e o quão bem apresentada em estilo.

Gurudev escreveu:

varsayam vai sajala-jalado vadayan mandra-bherim
yadvad visve bhramati bahudha varidharan cha varsan

tadvad bhumau bhramasi saganair ghosayan gaura-gatha
nityam divyamrta-sukarunam tvam hi deva pravarsan
(Sri Guru Prasasti, verso 6)

Dizendo: “Assim como na estação das chuvas, das monções, as nuvens de chuva circulam pelo céu tocando seus tambores e derramando chuvas torrenciais muito pesadas, assim você, na companhia de seus associados se move neste mundo, e reverbera as glórias de Sri Gauranga. E dessa maneira você derrama o poder de sua misericórdia neste mundo.”

Srila Gurudev viajava de trem de Kolkata para Nabadwip e veio essa forte tempestade, fazendo barulho no teto do trem. Então ele se inspirou a compor este verso. Deixemos nossa percepção de todas as características da natureza: as montanhas, as nuvens, as árvores, os pássaros, deixemos todos nos mostrar, nos lembrar, apontar para o Gaura-gatha [glórias de Gaura] de nosso Param Gurudev, com a oração de que algum dia nós possamos ser capazes de apreciar o que ele representou.

Quando Gurudev foi pela primeira vez a Mauritius, ele foi à comunidade de devotos que vivia perto da segunda maior montanha daquela ilha, uma montanha com picos muito agudos, pedras gigantescas, uma aparência muito distinta, e quando Gurudev foi para seu aposento, ali ele teve uma visão muito feliz daquela montanha. E eles disseram a ele: “Você viu essa montanha?” E Gurudev disse: “Sim, Guru Maharaj já está aqui olhando todos, e eu vim aqui para oferecer meu respeito a ele. Essa bela montanha é Guru Maharaj.”

Guru Maharaj deu uma alegoria sobre o Monte Everest. Quando introduzimos a consciência de Krishna, dizemos às pessoas: “Cante o Nome de Krsna, se torne um devoto de Krsna, aspire alcançar Krsna” assim como vemos à distancia toda a extensão dos Himalayas, e o destaque para o Monte Everest, o maior pico. Mas se você começar a escalar os Himalayas, quando chegar lá em cima, você começa a ver muitos outros picos em volta, e aí Guru Maharaj diz: “Naquele lugar você começa a olhar em volta e pode encontrar um abrigo por ali, em alguma caverna. Nós na verdade nunca servimos Krsna, mas nossa meta mais alta é sermos assistentes dos associados dEle, no serviço deles a Krsna, e sob o refúgio e liderança deles nos ocupamos em serviço.” Ele compara a consciência de Krsna a encontrar abrigo em alguma caverna particular, em algum pico particular, perto do pico do Monte Everest. Então podemos dizer: “Vir ao abrigo de Srila Guru Maharaj, conseguir algum lugar nessa caverna, essa é nossa grande esperança e felicidade.”

Uma vez, em uma reunião familiar como esta, Srila Gurudev disse diretamente: “Todos que se iniciaram comigo já estão liberados. Por que? Vocês não sabem! Mas eu sei! Vocês não podem sentir isso, mas eu posso. Há uma razão, que é o afeto de meu Guru. O relacionamento entre um avô e um neto é muito doce. Então sabendo sobre o grande afeto que ele tem por seus netos, não tenho dúvida da benção espiritual de vocês.” E ao escutar isso todos ficaram boquiabertos.

Então Gurudev fez uma pausa, esperou um pouco, e disse: “Mas, eu sei que no momento todos vocês estão ocupados com alguma tolice, por isso não posso dizer quando a liberação virá a vocês. Mas em última instância eu vejo que é tudo como brincadeira de criança. Tudo será perdoado sob o afeto do nosso avô guardião.”

Pessoas ordinárias deste mundo, por causa de suas identificações corporais podem se tornar tão fanáticas sobre as raças, sobre as famílias, dinastias, e todas estas coisas. Se elas estão prontas para lutar e cometer violência para expandir seus grupos, suas linhagens, então quando temos tal herança espiritual, tal linha espiritual com tal dignidade infinitamente maior e bela, onde está nosso entusiasmo, onde está nosso zelo para declarar a glórias de nosso Guru-varga? Por que deveríamos nos curvar a todos esses equívocos sobre nação, raça, de identificações materiais? Nós somos a família de nosso Gurudev, de nosso Guru Maharaj. Esse é o nosso orgulho, nossa alegria. E por isso queremos ganhar recursos, alistar pessoas, e ter grande prazer em cantar a glória deles. Em nossa posição social atual, em nossa comunidade atual, em nosso destino superior, temos uma sempre fresca, nunca depreciante fonte de inspiração, sabedoria e felicidade.

Hoje é o dia de desaparecimento de Srila Bhakti Raksak Sridhar Dev-Goswami Maharaj, o que na cultura Vaisnava é conhecido como Viraha Mahotsav. E como Srila Gurudev geralmente dizia neste dia em referência a Srila Haridas Thakur, haridāsa āchila pṛthivīra ‘śiromaṇi’(Cc. Antya 11.97): Haridas era a joia deste mundo. Tāhā vinā ratna-śūnyā ha-ila medinī: mas agora sem ele, o mundo perdeu sua joia valiosa.

Devemos ressentir alguma perda de não ter aquela fonte fluente e fresca de seus grandes ensinamentos neste mundo. Mesmo assim, na falta disso, quando temos a oportunidade de intensamente nos lembrarmos dessas coisas, podemos sentir uma grande fonte  de felicidade. Esse processo é um teste necessário no caminho espiritual. Qual tipo de teste devemos passar? Guru-mukha-padma-vākya chitete kariyā aikya āra nā kariha mane āśā, o que foi expresso pela boca de lótus de Gurudev, quero fazer meu coração uno com isso. E não tenho nenhum outro interesse ou aspiração. E é nessa situação que somos testados a respeito deste desejo.

Se essa palavra foi preservada e nos foi estendida, se isso é o guia de nossa vida ou não, se nós estamos confundidos pela sempre nova propaganda da sociedade materialista na qual vivemos, ou distraídos por algum outro tipo de assim chamado ‘ideal espiritual’, esse Festival é uma ocasião para nos reconectarmos à fonte novamente, novamente escutar, novamente nos banharmos nessa mais purificante representação de Guru e Gauranga que tão graciosamente foi preservada e estendida a nós pela geração de Ashram Maharaj, e tantos outros que vieram ao Math nos anos 80, e gravaram e distribuíram o que Srila Sridhar Maharaj deu para o mundo.

E eu também escutei de Devashis Prabhu sobre quando ele disse a Gurudev: “Eu acho que teria sido tão maravilhoso se eu tivesse vivido com você e com Srila Guru Maharaj no Math, há muitos anos atrás. Eu queria ter nascido antes!” E Gurudev riu e disse: “Não! Guru Maharaj era muito estrito, ninguém conseguia ficar na época dele.” E foi pelo humor sem paralelo de rendição de Srila Govinda Maharaj, que pôde satisfazer aquele padrão, e sua grande compaixão e natureza paciente, que ele fez possível a graça de Guru Maharaj ser estendida para todo o mundo. Primeiro por tantos anos na Índia, depois com os devotos ocidentais que foram bater à porta de Guru Maharaj.

E eu penso: “O que pode ser melhor do que isso? Nós temos a representação mais polida, mais refinada, do ideal mais elevado em Srila Sridhar Maharaj, e temos o humor mais compassivo, mais liberal em Srila Govinda Maharaj. Esse é um arranjo extraordinário feito por Mahaprabhu e Nityananda Prabhu.” Como Prabhodananda Saraswati disse: 

prasārita-mahā-prema-pīyūṣa-rasa-sāgare
chaitanya-chandre prakaṭe yo dīno dīna eva saḥ
(Chaitanya-chandramrta, 36; Prapanna-jivanamrta 8.22) 

“Agora Mahaprabhu veio, e espalhou o néctar de Seu amor, de Sua graça, por todos os lados. Qualquer um que não consiga isso, ele realmente é o mais indigente.”

A expressão mais magnânima foi expressa, e sentimos assim. Essa combinação de Gurudeva e Guru Maharaj é a mais misericordiosa. E como Gurudev sempre dizia: “Agora temos que utilizar nossa fortuna.” Sob a liderança daqueles que ele apontou para esse propósito como você (Ashram Maharaj), na companhia de todos que participam nesse templo. Assim estamos felizes na companhia de todos vocês. Jay Srila Bhakti Raksak Sridhar Dev-Goswami Maharajer Tirobhav Mahotsav ki jay! Gaura Bhakta-vrinda ki Kay! Hari-nam-sankirtan ki Jay!

* Sri Guru Prasasti, versos 6 e 7: composto por Srila Govinda Maharaj no 61˚aparecimento de Srila Sridhar Maharaj

*Vibudha-kula-varenyam: Verso de um dos Pranam Mantras compostos por Srila Govinda Maharaj em homenagem a Srila Sridhar Maharaj

Transcrito de: https://www.youtube.com/watch?v=V7Ko1s_IrAc&t=630s

Foto: https://indianexpress.com

Não Há Tratamento Alopático Para a Vida Espiritual

Pergunta: Por que a consciência de Kṛṣṇa é difícil?
Resposta: Temos um paradoxo. Por um ângulo podemos dizer que é algo natural, automático, mas por outro lado experimentamos alguma resistência, alguma distração, como assim então? Como é que por um lado é tão difícil, e por outro tão natural? Encontramos no Prapanna-jīvanāmṛtam, e escutamos de Gurudev:

ahaṅkāra-nivṛttānāṁ keśavo nahi dūragaḥ
ahaṅkāra-yutānāṁ hi madhye parvata-rāśayaḥ
(Brahma-vaivarta-purāṇa)

Para aqueles que estão livres do falso ego, o Senhor está muito perto. Mas para os outros que estão presos no falso ego há uma montanha os separando. Para as almas condicionadas, há um sentimento de que é quase impossível cruzar essa montanha. Há outro verso dos Upaniṣads que diz também: tad dūre tad v antike (Īu: 5) [Ele longe, e Ele perto], o que está muito longe e muito perto ao mesmo tempo.

Também recebemos muito encorajamento do Guru-varga [nossos professores sêniores e superiores] e das escrituras. No Gītā, quando Arjuna pergunta por que as pessoas pecam, o que nos motiva a não sermos bons, a não sermos consciência de Kṛṣṇa, o Senhor responde: kāma eṣa krodha eṣa rajo-guṇa-samudbhavaḥ (Bg. 3.37). A causa do pecado é algum desejo, kāma. E kāma é um desejo que está sendo destorcido pelo falso ego. Ichchhā, desejo, é uma função natural da alma. Um elemento da consciência, assim como pensar e sentir. Na linha Vaiṣṇava não queremos destruir essa existência consciente que temos, ou nossa capacidade de desejar, mas ajustá-la de uma maneira que seja saudável. Quando nosso desejo está mal ajustado, se chama kāma, que é um desejo viciado pelo falso ego, e isso é como uma doença da qual sofremos.

Guru Mahārāj em seu comentário do Śaraṇāgati cita Patañjali, e o que ele chama de pañcha-rog, doença de cinco partes. A primeira delas, avidyā [ignorância], é uma falta de consciência do nosso eu verdadeiro, da natureza real das coisas. Depois vem asmitā [egoísmo]. Na falta de uma compreensão apropriada nos identificamos com uma compreensão errônea, e desenvolvemos um ego falso, um senso errado do ego. E aí analisamos tudo o mais no mundo de acordo com o interesse deste falso ego. E isso produz duas coisas, rāga e dveṣa [apego e aversão]: “Quero muito isso, mas aquilo quero rejeitar.” E quando nos movemos em relação a estas duas forças, atingimos o estágio final da doença, abhiniveśa [apego], quando estamos totalmente perdidos no oceano de māyā, completamente imersos. E nos movemos no mundo e vemos tudo errado, tudo de acordo com essa perspectiva construída, e não de acordo com o que aquilo realmente é.

Nesse estágio começamos a adquirir muito karma, a produzir muitas impressões em nossa mente, em nossa inteligência, em nosso corpo sutil. Desenvolvemos hábitos e padrões. E aí vai ficando mais fácil continuar a ser dessa maneira. O padrão estabelecido, o caminho traçado, continuamos a agir dentro disso. E apesar de sofrermos quando agimos assim, só conseguimos dessa maneira. É como em um desenho animado, quando o personagem pisa em um ancinho, ou um rastelo, e o cabo bate de repente em seu rosto. E ele não entende porque isso continua acontecendo. Para o observador é muito óbvio o que está acontecendo, mas para o personagem, ele não entende. Então o sofrimento das almas condicionadas é mais ou menos assim. Em inglês tem um gênero de comédia que se chama ‘slapstick’ (pastelão). Māyā é assim, um grande pastelão. Estamos criando nosso próprio sofrimento, mas aí quando ele vem, saímos perguntando: “Quem fez isso, quem fez isso?” Isso é abhiniveśa, quando estamos completamente imersos nessa falsa realidade e sofremos. Isso é uma doença. E como mencionamos no Gītā, quando estamos dentro deste abhiniveśa, estamos seguindo a força do desejo, que nos motiva a fazermos coisas que são prejudiciais a nós mesmos.

E falhamos em ver o ciclo completo. Por causa do desejo queremos pegar as coisas e desfrutar delas. Mas essa satisfação só dura pouco tempo. Então a reação a isso vem, e pensamos: “Oh não! Essa reação está vindo! Preciso desta outra coisa!” Aí quando consigo outra coisa a reação vem, e preciso de outra coisa mais. E sempre pensamos: “Oh não, preciso é de outra coisa”, e aí sem fim continuamos nisso. Kāma é descrito como o grande inimigo do sábio. E deve ser derrotado. No Gītā é dito que kāma é tão poderoso que supera nosso bom senso e nosso conhecimento.

E por que nos sentamos aqui, e mesmo já tendo escutado estas verdades espirituais tantas vezes, e pelo menos no meu caso, tantas vezes tenho repetido os mesmos erros? Porque existe essa lacuna entre o que eu sei e o que eu faço. Isso é chamado de melancolia. Hari hari! viphale janama goṅāinu [Ó Senhor, minha vida se passou inutilmente]. Eu tive a chance, mas não a utilizei para adorar Rādhā-Kṛṣṇa. Tendo escutado e sabendo o que era, eu ainda assim bebi veneno. Nossa situação é essa. Escutamos estas coisas, e continuamos com nossos padrões. E vemos nestas canções as descrições de uma maneira sentimental, golokera prema-dhana hari-nāma-saṅkīrtana, rati nā janmila kena tāya [por que eu não desenvolvi apego ao Hari-nām-saṅkīrtan, nem pelo amor e riqueza divinos de Goloka?].  Sobre algo que vem do mundo espiritual, que é a vida e a alegria das pessoas que estão lá, por que eu não desenvolvi nenhum gosto por isso? saṁsāra-viṣānale: estou sofrendo no fogo venenoso do saṁsāra. Sei o que preciso fazer para sair disso, mas não faço.

Estas coisas ilustram esse ponto do Gītā. De que jñān é vencido por kāma. E este tipo de desejo material, não é apenas por conhecê-lo que ele se vai. Quando a gente adquire o conhecimento espiritual é como diagnosticar a doença, mas seguir com sucesso a dieta, os exercícios, a recomendação, é bem mais difícil do que diagnosticar a doença.

Bhakti Siddhānta Saraswatī Ṭhākur deu uma analogia, dizendo que o templo é como um hospital, Gurudev o médico, você o paciente. E sua doença, esse pañcha-rog. O remédio: Hari-nām. A dieta: prasādam. O exercício: sevā. Tudo foi provido. Mas precisa da determinação do paciente para que ele melhore e fique saudável. Fazendo uma analogia, as pessoas hoje pensam que tomam uma pílula e resolvem todo seu problema. Esse tipo de cura. Até para a doença espiritual deles, eles querem alguém que lhes fale um mantra e os cure imediatamente. Mas não há tratamento alopático para a vida espiritual. Há os remédios que apenas fazem o sintoma desaparecer, e há os remédios que fazem a ‘doença’ desaparecer. Não podemos só tomar os remédios que mascaram.

Temos que desenraizar a doença. Isso requer uma forte determinação e esforço da parte do paciente. E claro que temos que ter forte fé e convicção no processo. E precisamos de um bom médico. Passamos muito tempo glorificando nosso médico, nosso śāstra. E isso é muito bom. Precisamos de fé no médico e no diagnóstico. E vamos supor você chega para o médico e diz: “Doutor você é tão maravilhoso!” Aí você vira para o médico e diz: “Doutor você é tão maravilhoso. Eu amo como você me diz para tomar o remédio!” Aí seu médico fica te perguntando se você está tomando o remédio. E você dá muitas desculpas. Como você tem um médico, mas não faz o que ele te manda fazer? É mais fácil falar do médico do que tomar o remédio. E isso não vai resolver. Você ama o hospital, acha ele tão lindo, mas você está tomando o remédio? E principalmente a cafeteria! É um lugar muito legal! Hospitais são ótimos lugares para encontrarmos pessoas, onde podemos falar sobre nossa doença.

Essa não é a ideia correta. Hospitais não são lugares para nossa vida social. Ou para encontrar pessoas e levá-las a fazer outra coisa que não seja o tratamento que é indicado no hospital. Hospital, médico, remédio, têm que ser tomados com seriedade. E tudo é tão maravilhoso. As facilidades que temos ali, os remédios.

Mas esse desejo kāma é tão forte que ele nos impede de alcançarmos essas coisas. Algumas pessoas até duvidam: “Será que esse kāma [desejo] é mais forte que nós mesmos?” Não! Mas é que Māyā sabe como agir, ela sabe como executar sua função.

kṛṣṇa—sūrya-sama; māyā haya andhakāra
ā̐hā kṛṣṇa, tā̐hā nāhi māyāra adhikāra
(Cc: 2.22.31)

“Kṛṣṇa é como o sol; Māyā é como a escuridão. Onde quer que Kṛṣṇa esteja presente, Māyā está absente.”

Onde quer que Kṛṣṇa apareça, Māyā se vai. Não há questão sobre o poder espiritual positivo ser muito superior. Mas o que Māyā pode fazer, é que ela te distrai de se conectar com isso. Ela não é mais poderosa do que isso, mas é mais poderosa do que nós. Ela nos distrai. E aqui está a margem. É quando temos esta atração do nosso karma. E que tipo de conexões vamos mantendo.

Existe a possibilidade, a cada momento em nossa vida, de que estas mudanças vão acontecer. Vamos progredindo. E se vamos sinceramente seguindo a coisa certa, ao longo do tempo olhamos para trás e veremos muita mudança. Gurudev falou para termos um boletim em que nos autoanalisamos. Olhar no dia, no mês, na semana, no ano, ver se nossa prática está melhorando. E assim teremos uma percepção clara do futuro. E também é bom sempre colocarmos nosso ego em cheque. “Sempre preciso estar certo quando estou falando com alguém? E se alguém menciona que fiz algo errado não vou aceitar?”. “Ah não, eu olho para mim mesmo e posso ver meus erros. Mas se alguém mais me diz que preciso melhorar, eu resisto a essa misericórdia.” Essa é a complexidade do nosso estado condicionado.

E o que vai aliviando tudo isso, é sādhu-saṅga, é quando nos banhamos nos purificantes Santos Nomes, e quando nos deixamos guiar pelos dois princípios fundamentais dados por Rūpa Goswāmī no Bhakti-rasāmṛta-sindhu: anukūlya [se ajustar ao que é agradável ao Senhor] e sevonmukha [intenção de servir]. O que fazemos tem que ser para o serviço de Kṛṣṇa. E tem que ser feito com a meta de satisfazê-lo, e não a nós mesmos. Tem que ser serviço, e tem que ser abnegado. A cada momento essa pureza de propósito tem que ser mantida ao máximo.

Sem dúvida vamos errar. Mas falhar não é uma desculpa para abandonar. Vamos falhar, mas não podemos abandonar. E podemos sempre contar com o alívio de que não temos que encarar nossas falhas sozinhos. Não é que com meu esforço vou conseguir tudo sozinho. O Senhor está ali, todo compassivo, e se permitirmos que ele aja, mantendo esse senso de que há uma força que é maior do que toda experiência negativa que tenho, não ficaremos depressivos. Chaitanya-nāma kalayan na kadāpi śochyaḥ [5.19] é uma linha no  Prapanna-jīvanāmṛtam que diz: “Ao cantar o Nome de Śrī Chaitanyadev, nada pode ser lamentado por ninguém, em momento algum.”

Quando olho para minha própria condição, tenho tantas coisas para me lamentar. Mas quando olho para o quanto o Senhor é grandioso, isso passa. A bondade Dele é maior que minha maldade. Não importa o quão deficiente você seja, ele ainda é melhor. Então é bom ser pequeno, sentir felicidade de se ser uma entidade muito minúscula. Em nossa condição temos muito a lamentar, mas se olharmos para o Senhor e seu relacionamento com todo o sistema, não há nada para se lamentar. Ao mesmo tempo, como Gurudev disse: “Todos podem ter esperança, todos podem ser felizes. Estão todos no meu barco. Mas vocês têm que tolerar a velocidade. Pode ser que não seja muito rápido, ou muito fácil.” Então alguma paciência, alguma perseverança é necessária. Isso no contexto de nos tornarmos liberados, situados no nosso eu verdadeiro.

Então neste processo a consciência de Kṛṣṇa, apesar de natural, é sentida como difícil. Prahlād Mahārāj diz que assim como pedaços de ferro são atraídos pelo imã, somos magneticamente atraídos pelo Senhor. Mas se tiver ferrugem esse magnetismo é bloqueado. Tudo que estamos discutindo aqui é o processo de remoção da ferrugem. E então, automaticamente, irresistivelmente tudo ficará lindo, maravilhoso…ou não!

Quando começamos a escutar sobre a experiência das almas liberadas, quando começamos a escutar sobre a intensidade do que é Kṛṣṇa-prema puro, escutamos que de novo, naquele domínio, tudo fica difícil. Kṛṣṇa-prem produz um desejo intenso de servi-Lo. A pessoa sente que tudo que faz não é suficiente. Ela sente o quão belo Kṛṣṇa é, e o quão miserável ela e seu sevā são. Que contraste!

Novamente a pessoa sente que é impossível. “Porque Ele é tão belo, tão maravilhoso, nunca conseguirei servi-Lo suficientemente. Por que deveria então tentar?” Este tipo de lamentação é expressa por Mahaprabhu:

na prema-gandho ’sti darāpi me harau
krandāmi saubhāgya-bharaṁ prakāśitum
vaṁśī-vilāsy-ānana-lokanaṁ vinā
bibharmi yat prāṇa-pataṅgakān vṛthā
(Śrī Chaitanya-charitāmṛta: Madhya-līlā, 2.45)

Eu não tenho nem uma gota de Kṛṣṇa-prema, e mesmo assim eu faço um show, como se eu tivesse Kṛṣṇa-prema. Sem um vislumbre de Kṛṣṇa, sem uma conexão real com Kṛṣṇa. Assim eu continuo minha vida. Como um inseto, como um parasita. Namo mahā-vadānyāya kṛṣṇa-prema-pradāya te (Cc 2.19.53). Aquele que deu Kṛṣṇa-prema a todo o universo, agora diz que não tem nem um pouco de amor por Deus. Então esse Kṛṣṇa-prema é simplesmente impossível!

akaitava kṛṣṇa-prema, yena jāmbūnada-hema,
sei premā nṛloke nā haya
yadi haya tāra yoga nā haya tabe viyoga,
viyoga haile keha nā jīyaya
(Śrī Chaitanya-charitāmṛta: Madhya-līlā, 2.43)

Não se pode encontrar Kṛṣṇa-prema genuíno neste mundo. De uma maneira completamente sincera, não pode ser encontrado. Porque qualquer pessoa que tenha isso, ela não consegue tolerar nem um momento de separação de Kṛṣṇa. E se essa separação acontece, ela morre imediatamente. Kṛṣṇa é tão belo, e é em tal intensidade que Ele deve ser servido. E aqueles que sentem assim, não conseguem ficar aqui.

bāhye viṣa-jvālā haya, bhitare ānanda-maya,
kṛṣṇa-premāra adbhuta charita
(Śrī Chaitanya-charitāmṛta: Madhya-līlā, 2.50)

A natureza de Kṛṣṇa-prema é algo que confunde. De fato parece ser algo miserável, como o sofrimento. E como isso acontece, não sabemos, é um mistério. Mas Mahaprabhu diz:

śuddha-prema-sukha-sindhu, pāi tāra eka bindu,
sei bindu jagat ḍubāya
(Śrī Chaitanya-charitāmṛta: Madhya-līlā, 2.49)

Uma vez que eu sentir que tenho uma gota de amor do oceano de Kṛṣṇa-prema, essa experiência será suficiente para inundar todos os três universos. Uma gota disso, como disse Guru Mahārāj, pode estabelecer paz e felicidade em todas as direções. Que tipo de substância concentrada é essa? Tão rara, tão preciosa. Nós não podemos nem começar a sentir o que é isso.

Então aqui eu falei algumas expressões da dificuldade da consciência de Kṛṣṇa sentida até mesmo pela seção mais alta. Mas para mim nem preciso me preocupar com isso. Eu tenho essa montanha de ego para lidar, tenho muitas vidas de karma penduradas sobre mim. Tenho o suficiente de questões práticas com as quais me preocupar.

Mas como Gurudev disse, com boa companhia, com boa associação nossa jornada será boa.