Apreciando As Qualidades De Nossos Irmãos Espirituais

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Em comemoração à passagem de Sripad Ajita Krsna Das Brahmachari Seva Saurabh

Por Srila Bhakti Sundar Govinda Dev-Goswami Maharaj

Gradualmente, uma sociedade se torna fraca, mas um bom professor pode torná-la perfeita. Em nossa sociedade, em Mayapur—em todo lugar é assim. Em toda parte há algum ego, e o ego faz um massacre em nossa concepção espiritual. Não devemos nos envolver nisso. Devemos nos ater ao nosso alvo principal.

Um de meus irmãos espirituais, Ajita Krsna Prabhu, anteriormete Adhirachandra Majumadar, era o chefe de toda a missão aqui no Chaitanya Saraswat Math. Depois de Guru Maharaj, sua posição era a mais exaltada. Ele fazia todo o serviço aqui—todo serviço. Nós não acreditávamos o quanto um homem podia fazer. E sua natureza era muito doce. Ele ignorava qualquer coisa que alguém fizesse de errado. Ele sabia o que era certo e errado, mas ele ignorava sempre que alguém fizesse alguma coisa errada. Ele sabia e via os defeitos de todos, mas ele simplesmente fazia seu próprio seva: o serviço da Deidade, o serviço de Guru Maharaj, o serviço de cozinha, o serviço do almoxarifado, o serviço de distribuição de prasad—tudo. Ele fazia todos os vários serviços. Fiquei surpreso ao ver o padrão de sua vida devocional. Eu sou uma pessoa muito defeituosa, e quando eu fazia algo errado, eu observava e via como ele reagia. Eu vi que ele simplesmente ignorava estas coisas. Então eu entendi que ele era totalmente satisfeito com seu serviço e não se importava em ver qualquer coisa feia ou ruim em qualquer lugar.

Outro excelente servidor de Srila Guru Maharaj era Krishna Govinda Prabhu. Infelizmente ele se casou, mas Ajita Krishna Prabhu não. Krishna Govinda Prabhu não queria se casar, mas seus parentes o forçaram a se casar. Ele era um servo muito atencioso de Srila Guru Maharaj. Tive a sorte de ver servidores como eles, e eles eram muito carinhosos comigo. Eles sempre me ajudaram em meu serviço a Srila Guru Maharaj.

Fonte: falado em  10/04/07

Srila Bhakti Sundar Govinda Dev-Goswami Maharaj também escreveu o seguinte poema em sânscrito como uma homenagem a Sripad Ajita Krsna Das Brahmachari Seva Saurabh, que foi publicado como dedicatória no início da primeira edição Bengali do Sri Sri Prema-dhama-deva-stotram.

Utsarga Patram

Uma Nota Explicativa

srimad ajita-krsnakhyo brahmachari cha dasakah
purvam srimad adhirakhyo majumadara itiritah [1]
utsargi-krta-sarvasvo guru-krsna-padambuje
mano-dhana-tanu-sraddha-guru-seva-sada-vratah [2]

Srimad Ajita Krishna Das Brahmachari, que antes era conhecido como Srimad Adhirachandra Majumadar, deu tudo aos pés de lótus de Sri Guru e Krishna, e constantemente se ocupou em serviço fiel a Sri Guru com seu corpo, mente e riqueza.

rasadri-veda-gaurabde suklasadhastami-tithau
prapto dhama-rajo-‘chintyam sevartih sevakottamah [3]

No Gaura Astami, no mês de Asadh, no ano 485 da era Gaura (quarta-feira, 30 de junho de 1971), ele, que era o melhor de todos os servos e sempre ansioso por serviço, alcançou a inconcebível poeira do Santo Dham.

puta-seva-smrtes tasya sri-seva-saurabha-prabho
samraksane krtotsahair visva-srestha-hitaya cha [4]
gaura-gatha-maya-granthah prema-dhamas tavakhyakah
prakasito ‘tra chaitanya-sarasvata-mathasritaih [5]

Com grande entusiasmo em preservar a lembrança do serviço puro de Sri Seva Saurabh Prabhu, e para o maior benefício do mundo, este livro que é composto das glórias de Sri Gaura, Sri Sri Prema-dhama-deva-stotram, foi publicado aqui pelas almas rendidas do Sri Chaitanya Saraswat Math.

*Fontes: http://premadharma.org/the-ideal-servitor/

https://premadharma.org/satisfied-with-service/

“Mas Nós Não Vamos Nos Descarrilhar”

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E Śrīla Trivikram Mahārāj me disse ter ficado muito impressionado com o que Śrīla Govinda Mahārāj lhe disse, porque ele mesmo trouxe essa Deidade para cá, e é o que temos de mais valioso, temos algo muito importante para fazer aqui, no serviço à Deidade. Se não fizermos nada mais em nossas vidas, mas continuar com esse serviço, então isso é suficiente.

Na verdade nós não temos capacidade de adorar a Deidade. Esta é a Deidade de Śrīla Govinda Mahārāj, e ele a está adorando. E nós temos a oportunidade de sermos instrumentos dele. Como antes de oferecer cada artigo, nós o mostramos a Śrīla Gurudev, e pedimos para ele nos abençoar, todo o serviço deste Āśram, de fato é o serviço dele, e temos a oportunidade de estarmos engajados no serviço dele. Ele não está presente fisicamente, mas o coração e o desejo dele estão aqui, para que tudo continue e se torne mais glorioso.

Sem dúvida dificuldades virão, desafios, e os testes virão para todos nós. E nós temos que encará-los da maneira apropriada, e a coisa principal é que o que quer que aconteça vamos manter nossa conexão de serviço. Uma expressão de Śrīla Govinda Mahārāj: “nós não vamos nos descarrilhar.” Nosso trajeto é o trajeto do serviço. Neste mundo há muitos caminhos e muitas estradas, muitas ondas que podem nos pegar. Nós precisamos manter o foco nessa estrada que nos conecta ao nosso eterno benefício. E enquanto viajamos nessa estrada, muitas coisas podem acontecer, muitas pessoas podem se acidentar, algumas podem se machucar, outras podem morrer, outras vão se desviar, às vezes pode ter neblina na estrada, podemos sentir que estamos indo às cegas outras vezes, mas o que precisamos é de nos manter na estrada.

A estrada ainda está lá, o destino também. Essas coisas não mudaram. Talvez diferentes obstáculos  apareçam, mas a estrada ainda está lá para nós. Temos que continuar. Às vezes vamos nos sentir sozinhos, às vezes em um grupo. Às vezes vamos ver os outros tendo que encarar seus desafios, às vezes nós vamos cair e nossos amigos vão nos ajudar, outras vezes eles vão cair e você os ajudará. Mas temos que nos manter indo.

Há o exemplo de Arjuna, que Śrīla Śrīdhar Mahārāj gostava. Droṇāchārya era o mestre de armas dos Pāṇḍavas, e um dia examinando-os, ele colocou um pássaro de madeira na árvore, e um por um ele foi pedindo a eles que atirassem no pássaro. E para cada um ele foi perguntando o que estavam vendo, e as respostas eram: o pássaro, os galhos em volta do pássaro, o céu. E Droṇāchārya foi eliminando vendo que alguns não iriam conseguir. Quando chegou a vez de Arjuna, a única coisa que ele via era o olho do pássaro. Nem o corpo, nem a cabeça, nem as árvores em volta Arjuna podia ver. Então a ele Droṇāchārya permitiu atirar a flecha.

Dessa maneira estamos tentando desenvolver esse tipo de visão focada em nossa vida espiritual. Sem dúvida muitas distrações virão, muitos desejos e necessidades materiais. E às vezes estes serão tão poderosos que vamos precisar fazer algum acordo. Tipo você tem um filho de 3 anos de idade gritando, dizendo que quer chocolate, e às vezes você precisa dar alguma coisa à criança para poder voltar ao seu trabalho. Porque senão não vai conseguir terminar o que precisa. É muita distração.

Em nossas vidas de serviço teremos coisas do ambiente, ou internas, que serão poderosas. Então damos uma comida para essas coisas, para podermos ter paz. E aí podemos colocar nossa energia principal em nossa prática espiritual. Às vezes algum acordo, ou ajuste, mas o foco é no serviço. Esses acordos e ajustes devem ser subservientes à nossa meta mais elevada. Porque estamos em condições mistas: temos certo desejo de servir Guru Gaurāṅga, mas de acordo com a condição do nosso estado relativo temos que lidar com outros desejos, tendências prévias, com nosso karma.

E às vezes não vamos conseguir ignorar completamente a atração do lado material. Então vamos nos esforçar para nos manter em paz com isso. Mas não em prol dessa coisa. Vamos manter essa paz em prol de darmos mais energia ao lado mais elevado.

Essa é a ideia do sistema varṇāśram: de acordo com nossa natureza vamos estar situados em um papel e obrigações particulares na sociedade que correspondem à nossa natureza material. Mas isso é para ser a fundação da prática espiritual, para suportar o cultivo de algo mais elevado. O exemplo mais comum que utilizamos é a instituição do casamento. Se um homem ou mulher têm o desejo de estar com o sexo oposto, para a mente não ficar nisso, eles se casam, pacificam esse lado, e podem viver a vida de serviço. Também algumas pessoas que têm muito desejo de serem bem-sucedidas em suas vidas, talvez elas queiram ser famosas, ou queiram ser músicos, e é muito difícil abandonar esse desejo. Então tudo bem, eles seguem isso, e mantêm a visão de serem subservientes ao lado espiritual, e ainda utilizar esse engajamento material para o serviço. Por exemplo o caso de uma devota que queria ser médica, e Śrīla Gurudev a pediu para estudar veterinária para cuidar das vacas do Maṭh.

Esse é o propósito real do varṇāśram. Daiva-varṇāśram, centrado em Deus. O comentário de Śrīla Śrīdhar Mahārāj que Śrīla Govinda Mahārāj gostava tanto: “mantermos relações compreensivas [sympathetic] com a natureza.” Encontrar uma maneira de lidar com o ambiente harmoniosamente.

Às vezes penso em Śukadev Goswāmī, que estava completamente situado na plataforma do Brahman. Tudo para ele era espiritual. A tal ponto que ele não sentia a necessidade de usar roupa. Em uma ocasião, umas mulheres estavam se banhando no lago, e ele passou por ali. Elas não sentiram a necessidade de se cobrir. Elas puderam ver que os olhos dele estavam ausentes, ele não fez conexão com aquela situação. Esse tipo de plano de consciência existe. Apesar de não estarmos lá.  E não vamos fingir que estamos lá. Então fazemos alguns ajustes para nos mantermos em paz com o ambiente e conosco.

Śrī Viśākhā Didi, Brasil, junho de 2018.