NOSSA MAIS ALTA ASPIRAÇÃO

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Crédito: Bahman Farzad. flickr.com

Por Sripad Bhakti Kamal Tyagi Maharaj, 2017

Bem, esse é o dia de Sri Radhastami, muito brilhante e esperançoso dia que vem a nós todos os anos e nos faz lembrar da revelação que recebemos do nosso Guru-varga sobre o plano mais elevado no mundo transcendental e de todas as maravilhas encontradas lá. Um tema que é tanto fonte de muita alegria e de grande inspiração, quanto de grande reverência e cuidado. E com essa mistura de sentimentos nós tivemos a fortuna divina de estarmos presentes com Srila Gurudev em alguns anos nessa ocasião, e observar como ele observava esse dia, e como ele se engajava em glorificar Srimati Radharani com os devotos. E todos os anos, nesse dia ele falava na companhia dos devotos. Assim como temos as gravações dele, também as gravações de Srila Bhakti Raksak Sridhar Dev-Goswami Maharaj falando nesse dia, e em particular um conjunto de kirtans que Gurudev cantava para Guru Maharaj nesse dia, nós escutamos. Como Nyasi Maharaj demonstrou, não somos qualificados a cantar, e ficamos com medo de cantar. Nos sentimos ofendidos de cantar. Mesmo assim, escutá-los dos lábios de nosso Gurudev é uma grande benção. Mas algo que tem que ser considerado com muito cuidado.

Em uma ocasião Srila Gurudev começou sua glorificação a Radharani dizendo que a glorificação dela de fato está pressuposta em tudo. Em todas as escrituras, e também em toda glorificação comum que fazemos a Krsna. Então ele apontou que especialmente na cultura indiana a palavra mais comum usada para se referir a Deus, o equivalente coloquial do que chamamos Deus, é a palavra Bhagavan. E ele observou que se você olhar para essa palavra Bhagavan, que as pessoas não estão pensando nela etimologicamente, mas apenas pensando que ela significa Deus. Bhaga é fortuna, e van significa aquele que possui. Aquele que possui bhaga, fortuna, cujo último significado é Srimati Radharani. Ela é a fortuna, a riqueza, a fonte de toda substância, de toda virtude. Todo o conceito de recurso ou de substância. Então quem é Bhagavan: aquele que sempre está presente com Srimati Radharani. Inseparável dela.

No Radhashtakam, de Srila Bhakti Vinod Thakur, Bhakti Vinod Thakur dá a analogia do sol e sua luz inseparáveis. E antes, no Charitamrta, Kaviraj Goswami dá a analogia do almíscar e seu aroma, que são inseparáveis. E Srila Gurudev nesse dia usava a analogia da fala e seu significado. Assim como o almíscar e seu aroma, o sol e sua luz, a fala e seu significado, são todos inseparáveis, Radha e Krsna são inseparáveis. Mas na visão da Rupanuga sampradaya, e como foi dado por Das Goswami: a ênfase, o ponto focal está no significado, e não na fala. Está no aroma, e não no objeto. Está na luz e não na fonte. Então a ênfase vai no sakti. Esse ponto também foi muito significante no tempo de Srila Bhakti Siddhanta Saraswati Thakur quando ele começou a falar mais, com mais detalhes sobre o ponto focal preciso da adoração e aspiração divina na sampradaya. E então muitos dos seus seguidores, e a maioria dos Gaudiya Vaishnavas daquela época, todos acharam suas declarações e perspectivas revolucionárias, sem precedentes, e que cortavam com a compreensão geral.

Uma vez Saraswati Thakur estava em Vrndavan, e veio ao Radha Kunda na companhia de Paramananda Vidyaratna, que escutamos ter sido um dos primeiros discípulos e associados de Srila Saraswati Thakur. Ele veio para Saraswati Thakur quando era um adolescente, antes de Saraswati Thakur estabelecer o Gaudiya Math, antes dele aceitar sannyas. Enquanto ele ainda estava engajado em seu shata koti nam yajna em Mayapur, antes de estabelecer o Gaudiya Math, antes de tomar sannyas. Então Paramananda testemunhou Saraswati Thakur estabelecer a primeira máquina impressora, hospedar Kunja Babu pela primeira vez, e todos os eventos históricos que aconteceram, ele estava ali pessoalmente testemunhando-os.

E é significante este evento no Radha Kunda com Saraswati Thakur, e isso foi alguns anos depois, não em 1915, mas tipo 1932, depois que ele já estava na companhia de Saraswati Thakur por alguns 15 anos. Eles observaram lá a realeza de Bharatpur. O rei local de Bharatpur, que com sua família estava prestando dandavat completo em volta do Radha Kunda. É o parikrama em que se coloca uma pedra, presta-se dandavat, depois coloca a pedra de novo e presta-se dandavat, e assim faz-se o parikrama inteiro com dandavats completos.

E ele ficou encantado de ver aquilo. E veio dizer a Prabhupad: “Você já viu isso, quanto respeito o Maharaj de Bharatpur está mostrando ao Radha Kunda?” E a reação de Saraswati Thakur foi sóbria. “Sim, eles estão fazendo um show de reverência pelo Radha Kunda. Mas a reverência ao Radha Kunda que eles fazem, e a que nós fazemos são completamente opostas. Eles adoram o Radha Kunda com o objetivo de obter o favor de Krsna.” Com a ideia de que satisfazendo os servos de Krsna podemos alcançar a graça Dele. Em geral, nas escrituras, de maneira ampla, isso é dito em muitos lugares, que se você quer a misericórdia de Krsna você deve servir Seus devotos. Então ele ficará feliz com você. Então pensando que Srimati Radharani é uma grande, ou talvez a maior devota de Krsna, nós vamos oferecer respeito a ela e dessa maneira conseguir o favor de Krsna. Mas Saraswati Thakur completou: “Nosso objetivo é o oposto. Nossa preocupação é exclusivamente com Srimati Radharani. Porque ela serve Krsna, nós O serviremos. Porque ela tem algum engajamento em servir Krsna, nós O serviremos. Nosso foco, nossa aspiração é exclusivamente no serviço dela. Na satisfação dela.”

Elaborando sobre isso em outros momentos, especialmente em Bengal, pregando para os shaktas, para os adoradores da energia material, ou das várias formas de Parvati, Saraswati Thakur veio com declarações tipo: “Nós somos suddha-saktas, ou visudha tântricos. Por que perdemos tanto tempo condenando as adorações tântricas de sakti sendo que de fato nós somos os saktas,  nós somos os saktas reais?

Também sobre o hinduísmo. Em uma ocasião ele foi desafiado sobre por que pregava contra o hinduísmo, ele disse: “Não! Não estou fazendo isso. ‘Nós’ somos os hindus. E ninguém mais! Qual a cultura religiosa revelada na margem leste do Rio Sindhu? Nós somos os representantes dela. O que ela é em sua completude, nós a representamos. Ninguém mais. Quem é tântrico, quem é shakta, se você quer realmente entender isso, então nós somos isso. Nós somos a forma divina completa do que é ser isso. E sendo tudo isso, nós condenamos totalmente as formas torcidas, poluídas de interesse material que estas coisas podem tomar.”

Então esse é o ângulo de aspiração divina que é sentida no coração dos seguidores de Sri Rupa, o exclusivo foco no serviço de Srimati Radharani. E Srila Bhakti Raksak Sridhar Dev-Goswami Maharaj, em particular teve interesse, por assim dizer, em demonstrar como isso de fato foi representado em todas as escrituras, e como esse ponto sutil deve ser encontrado mesmo na noção mais geral da consciência de Krsna, na cultura Védica. E dois exemplos proeminentes que ele deu é o chatuh-sloki do Gita, e o mantra gayatri. Em ambos estes dois lugares, se pode dizer que são as mais conhecidas e acessíveis descrições da cultura espiritual de adoração à divindade que se pode encontrar no hinduísmo. Então ele vem, e observa: “Aqui de fato, isso foi discutido, apontado.”

Estas coisas nós escutamos em inúmeras ocasiões, as temos registradas em tantos textos, em particular onde se diz: tuṣyanti cha ramanti cha (Bg 10.9), e por que essa redundância aparente, de tuṣyanti (satisfeitos) e ramanti (em êxtase)? Para se fazer uma distinção entre todos os rasas,  e madhura-rasa. Então depois, Ele diz: upayānti te ( Bg. 10.10), e aqui Ele quer dizer upapati, amor de amante, para enfatizar que parakiya-rasa está acima de madhura-rasa. E desse modo ele entra em tantos detalhes refinados.

Nos é dito que quando A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupad retornou à Índia e veio ao Math pela primeira vez em 1967, Guru Maharaj estava interessado em falar sobre esse tema com ele. E eles conversaram por uma hora ou duas. Alguns versos do Gita-govinda vieram à tona, e assim dois discípulos dele, Achyutananda e Ramanuja, estavam lá, e Achyutananda perguntou: “O que você conversou com Sridhar Maharaj em bangla por tanto tempo? E Swami Prabhupad respondeu: “Se eu te dissesse você desmaiaria.” Tenho uma opinião pessoal sobre isso, já que alguns anos depois Gurudev contou sobre o que eles conversaram. Gurudev estava lá, escutou tudo, entendeu tudo, e nos explicou tudo depois, e eu não desmaiei, para minha tristeza. Você tem que ser abençoado para poder realmente apreciar, e então desmaiar ao escutar estas coisas. Não é só que vamos escutar algumas palavras e desmaiar. Acho que Swami Prabhupad falou muito bem: “Se você escutasse isso.” Significando que se você tiver acesso a isso, você desmaia. Nós escutamos Gurudev dizer, mas não tivemos a benção de desmaiar. Isso também nos lembra da natureza destas coisas yam evaiṣa vṛnute tena labhyaḥ, que são alcançadas apenas por aqueles a quem Ele escolher, e não por alguém que se esforça por agarrá-las, como em um lugar Bhakti Vinod Thakur disse: “alguém que está tateando no escuro”.

Então o chatuh-sloki do Gita sendo mostrado para enfatizar o que é parakiya-rasa, e apontar a posição última de Srimati Radharani. Tanto é assim, que quando o Senhor está concluindo, dizendo: mam ekam saranam vraja, então a representação última desse princípio vem à mente, e ele encerra o Gita,  inundando com a lembrança disso.

E também como encontramos na logo do Math, do Sri Chaitanya Saraswat Math, a representação de Param Guru Maharaj do mantra gayatri:

bhvādes tat savitur vareṇya-
vihitaṁ kṣetrajña-sevyārthakaṁ

Que esse plano que é dito estar acima de bhur, bhuvar, svaha, ele é o kṣetrajña-sevyārthakaṁ. Kṣetrajña significando a alma, e sevyārthakaṁ, o plano onde você só entra através do engajamento exclusivo em serviço. Não há absolutamente outra maneira de entrar ali. E qual a natureza daquele plano?

bhargo vai vṛsabhānu-jātma
vibhavaikārādhanā-śrīpuram
 

Esse plano, ou essa luz que de fato é um plano, é dito ser śrīpuram, a morada divina, a colônia divina que é manifestada por Srimati Radharani, vṛsabhānu-jātma vibhavaikārādhanā-śrīpuram. E então, nesse domínio, ele qualifica-o

bhargo dhāma-sadā nirasta-kuhakaṁ
prajñāna-līlā-puram

Esse plano ao qual se refere em um dos primeiros versos o Srimad Bhagavatam ( 1.1.1), dhāmnā svena sadā nirasta-kuhakaṁ satyaṁ paraṁ dhīmahi [Nós meditamos na Suprema Verdade, que é eternamente autoexistente além da ilusão]. Essa suprema verdade na qual se deve meditar, que está além da ilusão. Esse plano é apontado no Bhagavatam como a plataforma mais elevada de adoração. Este plano é essa cidade divina manifesta pela energia de Srimati Radharani, para o serviço de Sri Krsna.

Então ele qualifica quem é Deva, que por fim é Sri Krsna. E ele diz para meditar na luz desse Deva, que é meditar na morada na qual Srimati Radharani se engaja no serviço eterno a Krsna. E por fim isso é Radha-dasyam que é enfatizado no mantra. E ele conclui dizendo:

gāyatrī muralīṣṭa kīrtana-dhanaṁ
rādhā-padaṁ dhīmahi

E Gurudeva dizia: “Guru Maharaj gostava mais da referência indireta e eu gosto da direta: que é o ultimo verso.

dhīrārādhānam-eva nānyad iti tad
rādhā-padaṁ dhīmahi

Onde está dito exclusivamente: “nada além da meditação nos pés de lótus de Srimati Radharani.” E foi isso que foi dado por Mahaprabhu. Isso é a expressão última da canção que sai da flauta de Krsna e do mantra gayatri. E isso é conversado muito docemente na discussão entre os papagaios que é descrita por Gurudev. Ele sempre citava neste dia. Há um humor supramundano nela. Quando Mahaprabhu visita Vrndavan, então é descrito como esses papagaios têm uma aparente discussão sobre Radha e Krsna. O papagaio macho fala em favor de Krsna e a fêmea em favor de Srimati Radharani:

E lá o ponto é dado, em que o macho diz: “Meu Krsna é Madana Mohan. O mundo inteiro é cativado pelo cupido, mas até ele é cativado por Krsna. A beleza de Krsna eclipsa a beleza de todas as coisas encontradas neste mundo. Meu Krsna é o mais atrativo, o mais cativante.” Então Kaviraj Goswami coloca isso como bame radha chatak, que a resposta da papagaia fêmea é: “Isso porque Radharani está do lado Dele.”

Uma vez no Radhashtami, na época de Srila Bhakti Siddhanta Saraswati Thakur, um devoto começou a adicionar uma linha esquisita, bhuvana mohini radhe radhe. Então Saraswati Thakur desceu, e ficou furioso e parou o kirtan, brigou, para nunca mais cantar desse jeito. Srimati Radharani não tem nada com esse mundo. Ela nunca seria bhuvana mohini [aquela que encanta o mundo]. Ela é bhuvana mohan mohini, ela encanta Krsna [o encantador do mundo].

Então essa ‘discussão’ dos papagaios, que Gurudev sempre citava e ria. Uma vez um devoto recitou o poema inteiro para Gurudev e Guru Maharaj escutarem, e eles riram muito. Gurudev sempre citava essa parte:

suka bale, amara krsna giri dharechhila
sari bale, amara radha sakti sancharila
naile parbe kena

“Meu Krsna levantou a Colina de Govardhan.” E Sari respondeu: “Isso porque Radharani deu a Ele o sakti para fazer isso. Se Ela não tivesse dado como Ele poderia ter feito isso?”

Depois ele diz: “Meu Krsna usa uma pena de pavão em Sua cabeça”. E Sari responde: “Porque está escrito o nome de minha Radha nela. Vá lá e veja você mesmo.”

Depois ele diz: “Meu Krsna é jagatera prana, a vida do universo.” E ela responde: “Mas minha Radha dá vida a Ele. Se não fosse assim, Ele conseguiria ter vida por si Só?”

E também “Meu Krsna toca flauta muito belamente. Amara krsnera vamsi kare gana.” E ela responde: “Está certo, bale radhara nama, Ele toca o nome de Radharani.”

E isso nos traz de volta ao comentário de Guru Maharaj sobre o gayatri, e todas estas coisas. Em uma discussão aparente, doce, esses pontos são dados para enfatizar o foco dos suddha-shaktas, ou essa parcialidade, aspiração exclusiva a servir Srimati Radharani. E isso está vividamente expresso no verso de Das Goswami, que escutamos em tantas ocasiões de Srila Gurudev:

āśā-bharair amṛta-sindhuḥ mayaiḥ kathañchit
kālo mayāti-gamitaḥ kila sāmprataṁ hi
tvañ chet kṛpāṁ mayi vidhāsyasi naiva kiṁ me
prāṇair vrajena cha varoru bakāriṇāpi
(Vilāpa-kusumāñjalī: 102)

Que ele escreve na última parte de sua vida, quando vivia perto do Radha Kunda. Depois de sua juventude em Saptagram, depois do Chira-dhari Mahotsav, depois de fugir para Puri, depois de 16 anos com Mahaprabhu, depois de planejar abandonar sua vida pulando de Govardhan, depois de estar junto com Rupa e Sanatan, depois de passar horas do dia falando sobre Mahaprabhu, depois de se engajar em um sadhana  intenso e extremo, sem precedentes, depois da ida de Rupa e Sanatan. Em seus últimos dias, às margens do Radha Kunda, ele representa o prayojan Acharya, a posição mais alta, a mais alta posição possível de se atingir na sampradaya. E isso está encapsulado neste verso: “Com a esperança que eu sentia ser como um oceano de néctar, passei tanto tempo aqui nas margens do seu lago, e se agora você não der sua misericórdia, então qual o valor de Vrndavan, de minha vida, ou mesmo daquele matador de demônios?”

Ele usa essa palavra bakāriṇāpi, que significa Krsna o destruidor de Baka. Então Gurudev disse que Das Goswami, ao dizer bakari se refere ao matador de demônios. Então com algum desgosto ele fala de Krsna. “O que eu quereria com esse matador de demônios?”

Essa é a expressão completa do coração, nessa linha. Nenhum interesse em Krsna, ao contrário, aversão a Krsna. Então alguém pode perguntar: “Eu achava que isso era consciência de Krsna!” Então apagamos, e o representante mais alto do prayojan tattva, em toda a sampradaya da consciência de Krsna vem e diz o contrário.

Temos que repensar o que é a consciência de Krsna. E consciência de Krsna significa Krsna Chaitanya, Mahaprabhu. E o valor da consciência de Krsna é muito mais entender a posição de Srimati Radharani. A influência dela sobre Krsna, a vitória dela em relação a Krsna. Isso é consciência de Krsna. Isso é o que deve ser adorado. Isso é o foco de todas estas coisas. Então Das Goswami passou sua vida orando pela misericórdia de Srimati Radharani dessa maneira.

E Srila Saraswati Thakur também se lembrou, que em alguns momentos observando seu Gurudev Srila Gaura Kishor Das Babaji, em seus últimos dias, quase cego, nas vestes de um avadhut, completamente alheio ao mundo, andando cambaleante por Nabadwip Dham, e cantando :vrndavane vilase radhe radhe, repetindo isso. E o que algumas pessoas não compreendem é que ele não estava falando diretamente de Srimati Radharani, ele está pensando e meditando em Das Goswami, que orava desta maneira. Ele estava aspirando prestar serviço a Das Goswami, implorando a Das Goswami. Em lembrança a Das Goswami, ele cantava essa canção, para ser um Rupanuga. E quem é um Rupanuga? É Das Goswami. Como o Maharaj disse, nossa aspiração é sermos os servos dos servos destes. Ter o maior desejo de ter a menor conexão, mesmo para o tipo mais marginal de serviço, a alguma pessoa conectada a esta linha. Isso será substancial, uma fundação sólida em nossa aproximação.

Porque não podemos nos esquecer, que mesmo a oportunidade de termos escutado estas coisas, isso é de grande significado. Srila Saraswati Thakir também apontou que no Bhagavatam não escutamos o nome de Srimati Radharani. Na parte do rasa-lila, na visita de Uddhava a Vrndavan, ela é aludida, mas nunca mencionada por nome. Nunca o nome dela é mencionado.

Mas Sukadev Goswami, ao falar para aqueles sábios, Gurudev observou, a mentalidade dele não era de alguém tentando vender produtos no mercado. Uma observação muito legal. Hoje em dia com o conceito de marketing, em que as pessoas falam dos benefícios, das facilidades do produto, quais são as características únicas do produto. Se o seu propósito de vendas for mostrar a posição de Srimati Radharani e você nem menciona o nome do produto!! Essa a pior das piores estratégias. Em meio a 18 mil versos, você apenas se refere indiretamente a ela por duas vezes.

A mentalidade dele não era a de alguém tentando vender produtos no mercado. Não é que o produto tem que ser vendido ao comprador. Mas o comprador tem que merecer o produto. E é até impróprio chamar isso de produto, porque de fato se trata de um tesouro divino. Não é que precisamos te ajudar a compreender o quão grandioso isso é, e como você deveria desejá-lo.  Ao contrário, você tem o ônus de ser merecedor  mesmo que seja de escutar sobre isso. Então Sukadev Goswami também considerou que aqueles sábios não tinham fé para escutar isso. Os grandes rsis, celebrados nos Vedas, ele está hesitando se referir a eles. Então pessoas de sabedoria, conhecimento, desapego e capacidades espetaculares, tais pessoas, Sukadev Goswami diz: “Não! Agora não é o momento.”

Mas sem dúvida encontramos no Garga-samhita, no Brahma-vaivarta-purana, e em outros lugares dos textos antigos que se referem diretamente a Srimati Radharani. Mas Sukadev Goswami não quis mencioná-la diretamente. E ainda Mahaprabhu deu o maior reconhecimento ao Srimad Bhagavatam.

yadi, gaura nā ha’ta tabe ki ha-ita
kemane dharitām de
rādhāra mahimā prema-rasa-sīmā
jagate jānāta ke?

“Se Śrī Gaura não tivesse vindo, o que teria acontecido? Como manteríamos nossas vidas? Quem revelaria ao mundo a gló­ria de Śrī Rādhā e os extremos de Seu extático amor divino?”

Um dos propósitos de Mahaprabhu é revelar isso, mas ele escolheu como o texto principal sobre o qual estabelecer seu siddhanta, o livro que não menciona esse nome. Seu propósito último é revelar isso e ele dá a máxima ênfase: śrīmad-bhāgavataṁ purāṇam amalaṁ (SB 12.13.18). O Srimad Bhagavatam é o texto cardinal da Gaudiya Sampradaya, e esse texto não menciona isso diretamente.

Então de novo, somos levados a entender que a ênfase é desenvolver a qualidade necessária para ser abençoado a escutar essas coisas. Isso é muito mais valioso do que sair e falar com pessoas que não podem apreciar o que é isso. E aqui é mais um ponto favorável para o que Guru Maharaj chamava de espinha dorsal de Srila Sarawati Thakur, sua dignidade, pūjala rāga-pātha gaurava-baṅghe, esse caminho, esse plano do amor é para ser reverenciado e adorado em postura de reverência. E para extrair tal reverência, o Bhagavatam é apresentado assim por Sukadev. Mahaprabhu dá tal ênfase ao Bhagavatam, para que se cultive tal reverência.

Se torne qualificado, e as coisas mais altas descenderão de acordo. Se torne adequado, desenvolva a reverência, desenvolva uma atitude de serviço sincera. E então estas coisas descenderão de acordo. Aqui cabe a frase: ‘tolos correm onde anjos temem pisar.’ Nas coisas mais refinadas os tolos querem ir e agarrar aquilo, acessar estas coisas com sua consciência atual iludida. Com seu intelecto material atual.

Então, para se resguardar disso, uma ênfase forte é dada sobre o princípio chamado de dig darshan: que é indicar a direção, dar uma visão geral, em termos medicinais: uma dose balanceada. Quando se dá a dose de algum remédio, tem que ser o suficiente para curar a doença. Não se pode dar mais do que o necessário, porque isso pode prejudicar a pessoa. A noção da dose deve ser altamente monitorada neste caso. Porque é um tipo de remédio que uma overdose é muito perigosa. Não faça isso. Porque isso pode te matar.

Nas palavras de Srila Saraswati Thakur: “Quando você se vestir com as vestes do sahajjysmo, não haverá esperança para você.” Não estrague sua fortuna. Não pense que esse remédio é maravilhoso e então você vai tomar mais e mais. Não se automedique. Já vai haver problemas o suficiente nesse contexto, que é o do tipo mais alto de cura para bhava-rog [doença do coração]. Não se automedique. Encontre um Guru, um Guru real,  e um médico, um médico real, e siga as prescrições!

Então podemos dizer que o perigo da overdose: sahajiya. O perigo da subdosagem: mayavad. Nenhuma dose e você nem é um teísta. Uma quantidade insuficiente de dose, e você termina como uma pessoa que teme Deus, um adorador reverencial de outra sampradaya. E exatamente a quantidade necessária: Gaudiya Vaisnava!

Sripad Nyasi Maharaj: sahajiya significa também ir de uma maneira ‘voyeur’aos Goswamis e lê-los sozinhos, sem consciência.

Sripad Tyagi Maharaj: Guru Maharaj diz que há aprakrta sahajiyās, e a isso aspiramos, mas os prakrta sahajiyās, hoje em dia, e esse foi um termo que Srila Saraswati Thakur cunhou, prakrta sahajiyās, no Sajjana Tosani, e as pessoas se perguntavam o que isso queria dizer. Sahajiya. Jiya significa janma, nascer, surgir, crescer e saha significa com. Então vir com, algo inato, natural. Uma coisa que está naturalmente ali. Então as pessoas pensam que quando escutam descrições de coisas que são aprakrtas, apenas com seu estado presente, como somos naturalmente, podem entender estas coisas, ou que as compreendem e as experimentam. É simplesmente natural, automático. Isso é o que é ser um sahajiya, alguém que adere a algo que pensa ser natural a ele. Então escutamos algo aprakrta e concordarmos que nosso prospecto último está neste plano aprakrta, onde há algo que é naturalmente satisfatório, que virá de acordo com a natureza da alma. E sim, nós queremos ser naturais, de acordo com nossas almas.

Mas se atribuímos nossa natureza à nossa condição material, adquirida no mundo de samsara, e tentamos cultivar coisas que são ditas como divinas, em relação a isso, então apenas perpetuaremos nossa condição. Para dizer educadamente. E acabamos por envergonhar toda a cultura teísta e seus servidores. Dependendo da severidade do caso.

De qualquer maneira, sabemos que Guru Maharaj, quando se tratava da adoração de Srimati Radharani, de Vrndavan, da discussão sobre madhura-rasa, ele se declarava mais estrito ainda que Srila Saraswati Thakur. Sobre o que era permitido que se cantasse, ou que se discutisse livremente, ele era mais estrito que seu Guru Maharaj. E por que? Em parte por causa de sua própria realização, e em parte observando o que aconteceu com muitos de seus irmãos espirituais. Então neste ponto temos muita sobriedade, e queremos muito manter nosso cuidado e respeito como fomos ensinados, ou treinados por Srila Gurudeva e Srila Guru Maharaj. Se virmos os vídeos de Srila Guru Maharaj, toda vez, antes dele falar o nome de Srimati Radharani ele faz a reverência com as mãos em sua cabeça. Ou pelo menos antes de começar um parágrafo sobre esse tema, com muito cuidado, com muita sensibilidade ele sempre repetia esse gesto. E depois ele fala o tempo todo Dayal Nitai, o cantar ao qual ele se dedicou no final de sua vida. E quando perguntado do por que, ele responde que ousou se referir tantas vezes a Srimati Radharani e à sua posição, em seus escritos, em suas falas, mas que realmente se isso não for sancionado por Nityananda Prabhu então não há prospecto positivo nisso. O doador fundamental, que dá acesso ao plano, é Nityananda Prabhu, e precisamos ser completamente conscientes da necessidade de Sua sanção.

Uma vez um sahajiya de Ekachakra veio a Gurudeva e perguntou por que no Gaudiya Math eles glorificavam tanto Nityananda Prabhu, e perguntou como vamos atingir raga-marga, o serviço de Srimati Radharani?

E Gurudev disse: “Eu li a mente dele imediatamente. Eu sabia que ele estava pensando sobre os versos do Ramananda Samvad, que dizem que apenas através da misericórdia das sakhis podemos entrar no serviço a Radharani.” E ele estava com esse sloka na ponta da língua, mas Gurudev respondeu imediatamente: “Pela misericórdia de Nityananda Prabhu.” Porque ele sabia que aquela pessoa estava pensando aquilo. Então imediatamente o homem quis falar sobre esse sloka, e Gurudev respondeu: “Não é que não considerei esse ponto.” E ele falou sobre algo que Guru Maharaj havia lhe ensinado: “Se madhura-rasa é a porta, Nityananda Prabhu te pega do samsara te traz a essa porta, abre-a, te diz: ‘vai’, e te empurra. Nityananda mesmo não entra, mas ele faz tudo e te manda entrar. Então se realmente isso acontecer, estas outras coisas entram em ação. Hena nitāi vine bhāi [Sem este Nitai, Ó irmão!].

Outro ponto a se fazer sobre esse assunto, é que nós falamos sobre sahajiysmo e o dig darsan, o ajuste da dose. A indicação apropriada da exata direção, da estrutura ontológica das coisas, e para onde devemos direcionar nossa aspiração, a esse respeito há um outro verso de Prabodhānanda Saraswatī, que escutamos em todos os Radhastamis, que Gurudeva dizia:

 yasyaḥ kadāpi vasanañchala khelanottha-
dhanyātidhanya-pavenena kṛtārthamānī
yogindra-durgama-gatir madhusūdano ’pi
tasyāḥ namo ’stu vṛṣabhānubhuvo diśe ’pi
(Rādhā-rasa-sudhā-nidhi: 2)

Gurudev disse: “Nós podemos entender tudo que precisamos saber sobre Srimati Radharani, nessa posição atual em que estamos, apenas neste verso. Um ponto é o suficiente para entendermos tudo. Que é que se Krsna sentir qualquer brisa o tocando, vinda do sari de Srimati Radharani (porque quando ela serve prasadam ela se move) então Ele se sente extremamente afortunado. Ele fica completamente feliz, isso é o ápice de Seu dia, de Sua vida, sentir alguma brisa vindo a Ele do sari Dela. Esse que é muito difícil de atingir até pelos sadhus, sábios, pelos maiores yogis, apenas ao sentir a brisa que vem do sari de Srimati Radharani, isso é o suficiente. Aqui está tudo que precisamos saber. E então Prabhodananda Saraswati Thakur diz: “Eu me curvo à direção do lugar onde Srimati Radharani apareceu. Apenas para saber em qual direção devo curvar minha cabeça. E então posso tomar minha obrigação, o processo de purificação a cultivar para que um dia possa ser abençoado a entrar ali.”

Estas coisas são as coisas mais refinadas do coração de nossos Gurus. E vemos que Saraswati Thakur era muito extremo nessas ocasiões. Escutamos que no começo, quando ele vivia em Kolkatta ele tinha um amigo, que ele não via há muito anos, uns 10, 20 anos. E aí depois ele escutou que essa pessoa estava dando palestras para um grupo bhakti em Kolkatta, e ele o convidou para escutar uma palestra sobre o Bhagavatam.  Saraswati Thakru relutou, não queria ir, ele tinha uma intuição de algum tipo de sahajiysmo. Mas ele foi, e chegou ali, não teve a chance de falar, nem recebeu nenhum tipo de honra, apenas sentou, e começou a escutar. O homem estava dizendo que Laksmi Devi tem uma posição mais alta do que Srimati Radharani, e isso foi fervendo dentro de Saraswati Thakur, ele não conseguiu controlar, e acabou desmaiando. Esse tipo de intensidade extrema.

Como Guru Maharaj se referia a ele: “Quando meu Guru Maharaj, em ocasiões particulares, começava a falar de Radharani, então ele parecia estar muito em casa. Eram as coisas mais familiares, mais tangíveis para ele.”

E ao mesmo tempo escutamos de Guru Maharaj também: “Meu Guru Maharaj gastou 90% de seu tempo estabelecendo o que madhura-rasa não é.”

Então externamente, a postura de um devastador, mas internamente o mais doce. E Guru Maharaj podia sentir e traçar estas coisas. Quando ele compôs seu Bhakti Vinod Viraha Dasakam, no final do verso, ele encapsula a essência de toda a sampradaya:

sri-gauranumatam svarupa-viditam rupagrajenadrtam
rupadyaih parivesitam raghu-ganair asvaditam sevitam
jivadyair abhiraksitam suka-siva-brahmadi-sammanitam
sri-radha-pada-sevanamrtam aho tad datum iso bhavan
(Srimad Bhakti Vinod Viraha Dasakam: 8-9) 

O que Mahaprabhu revelou, o que Svarup sabia, o que Sanatan Goswami adorou, o que Rupa Goswami representava, o que Das Goswami saboreou, o que Jiva Goswami, Chakravarti Thakur, Baladev Vidyabhusan protegeram. O que é reverenciado até por Brahma, Siva, Suka, Sanatan, Uddhav. Que substância é essa? sri-radha-pada-sevanamrtam aho tad datum iso bhavan: é o serviço divino aos pés de Srimati Radharani. E você Bhakti Vinod Thakur, veio ao mundo para representar isso.

E é com esse sloka, com essa realização, com essa representação cristalina que Srila Saraswati Thakur ficou completamente satisfeito e seguro com Guru Maharaj. Depois disso ele disse: “Agora estou confiante que depois de mim, no futuro, pelo menos um homem poderá representar apropriadamente o que eu vim a este mundo para dizer.” Tanto que ele ainda disse: “Não foi você quem escreveu esse sloka. Bhakti Vinod Thakur ele mesmo escreveu este sloka através de você.”

Então nos referimos a estas coisas para dizer, que realmente pelas próprias palavras, para mostrar o que é a aspiração mais refinada, clara nesta linha. Por fim vou dizer que Guru Maharaj em um ano, falando no Radhastami, se referiu a esse verso que Bhakti Vinod Thakur concluiu, o Radhastakam, dizendo, após glorificar Srimati Radharani: “Eu oro apenas para ter o serviço daqueles que a mantém como sua única riqueza.” Em outras palavras, ser o servo do servo Dela. Essa minha única oração. Guru Maharaj falando sobre esse verso ele diz: “Se estas coisas que não foram ditas pelo Bhagavatam, mas foram reveladas pelo Senhor na forma de Chaitanya Mahaprabhu, se todas estas coisas chegaram à sua vida, que desculpa você tem para manter qualquer interesse neste mundo, ou qualquer aspiração à parte desta? Que desculpa você dará as pés de seu Mestre no fim dessa vida?”

 

 

 

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