Por trás da tela, a mão amistosa de Sri Krshna

Por Srila Bhakti Raksak Sridhar Dev-Goswami Maharaj

Sridhar Maharaj

 

“Se pudermos desenvolver a visão apropriada, o rosto sorridente do Senhor aparecerá por  trás da tela. Isso é a Consciência de Krishna. Krishna é belo e Ele está ansioso esperando para aceitar nossos serviços.”

Bhakti não depende do meio ambiente nem das transações de outros. Nada pode obscurecer esse fluxo exceto nosso próprio ego (ahaituky apratihata). Eu sou meu próprio maior inimigo.

uddhared atmanatmanam natmanam avasadayet
atmaiva hy atmano bandhur atmaiva ripur atmanah

“Podemos elevar ou degradar a nós mesmos. Somos nosso melhor amigo ou pior inimigo.” Nenhuma força externa pode nos reprimir, se formos sinceros. É claro que, em relação aos principiantes, existe alguma preocupação a respeito do ambiente apropriado para o cultivo espiritual, mas mesmo isso também depende da natureza de sua sinceridade, ou sukrti: na hi kalyana-krt kascid durgatim tata gacchati. Krishna oferece a garantia aqui. Ele diz, “Eu estarei presente para cuidar de você em qualquer circunstância desfavorável. Eu sou omnisciente. E também sou omnipotente. Assim, se uma pessoa se dirigir a Mim, Eu cuidarei dela.” E a história também tem mostrado isso, como nos casos de Dhruva, Prahlad e tantos outros. A sinceridade é invencível. Até mesmo os obstáculos podem melhorar a nossa posição, se os aceitarmos da forma correta. De um ponto de vista superior, pode-se perceber que tudo vem para nos ajudar.

tat te ‘nukampam susamiksamano
bhunjana evatma-krtam vipakam
hrd-vag-vapurbhir vidhadhan
namas te jiveta yo mukti-pade sa daya bhak

O Srimad-Bhagavatam (10.14.8) nos oferece uma sugestão repleta de esperança para todos  os estágios de vida: culpe a si mesmo e a ninguém mais. Mantenha seu apreço pelo Senhor, vendo a tudo como Sua graça. No presente, pensamos que as circunstâncias que nos envolvem são indesejáveis, pois não se ajustam a nosso gosto atual. Mas o remédio nem sempre se ajusta ao gosto do paciente, ainda que conduz à saúde. Este verso apresenta a norma dos shastras do tipo mais elevada. Se puder seguir esta lei, então, em pouco tempo, você obterá uma posição muito boa. Devemos ser muito cuidadosos de não culparmos as circunstâncias, mas devemos apreciar que Krishna Se encontra por trás de tudo. Krishna é meu melhor amigo; Ele está por trás de tudo. Tudo está passando diante de Seus olhos atentos. Assim, não pode existir qualquer defeito lá.

Até mesmo Srimati Radharani diz, “Ele não deve ser culpado. Esta longa separação de Krishna é apenas o resultado de Meu destino. Ele não deve ser culpado por isso.” Ainda que externamente todos admitam que Ele foi cruel ao deixar as Gopis, Radharani não está pronta para responsabilizar a Krishna. Ela pensa que, “NEle não pode haver nada de errado. Deve haver algo de errado em Mim que deve ser responsável por esta situação desafortunada.” A competição entre os grupos de Gopis no serviço a Krishna também é harmonizada desse modo por Radharani. Krishnadasa Kaviraja Goswami explicou este ponto muito importante. Segundo ele, não é que Radharani não goste que outros grupos sirvam a Krishna competindo com Ela, mas Ela sente que essas Gopis não conseguem satisfazer a Krishna tão bem como Ela. E isso deveria ser notado muito cuidadosamente. Ela sabe que elas não podem dar satisfação apropriada a Krishna; assim, Ela não pode apreciar a tentativa delas de tomar o Seu lugar. Essa é a argumentação dEla. Ela pensa, “Se elas pudessem servir a Krishna bem e satisfazê-lO plenamente, Eu nada teria a reclamar. Mas não conseguem. E ainda assim, agressivamente estão vindo para servir? Eu não posso tolerar isso.”

Kaviraja Goswami citou como exemplo deste tipo de devoção uma referência histórica dos Puranas. Certa vez, um brahmana leproso tinha uma esposa casta. Ela sempre tentava ao máximo servi-lo. Certo dia, enquanto banhava seu esposo num rio sagrado, viu que ele se enamorou da beleza extraordinária de uma prostituta chamada Laksahira. Seu nome indica que ela possuía o brilho e a beleza de cem mil diamantes. O brahmana leproso ficou irresistivelmente atraído por ela. Ao voltar à sua casa, a esposa casta percebeu alguma insatisfação nele e perguntou: “Por que você se sente tão insatisfeito?” O esposo respondeu:

“Eu senti alguma atração pela beleza daquela prostituta. E não consigo desviar a minha mente dela.” “Oh! Você a deseja?” “Sim, é verdade.” “Então, eu tentarei fazer os arranjos.”

Assim, já que ela era pobre, a dama casta, ainda que fosse uma brahmana qualificada, começou a ir à casa da prostituta todo dia para trabalhar como serva. Ainda que ela era aristocrática por nascimento, aceitou fazer o trabalho de uma serva sem qualquer remuneração.

E realizou seus deveres de modo tão diligente que atraiu a atenção da prostituta, a senhora da casa, que começou a perguntar: “Quem limpa tudo tão bem e belamente?” Ficou sabendo que uma dama brahmana vinha todas as manhãs e realizava muitas tarefas domésticas. As demais empregadas disseram, “Tentamos fazê-la parar, mas ela nem quis ouvir a respeito.

Ela deseja encontrar-se com a senhora”. Laksahira então respondeu: “Está certo. Amanhã, vocês podem trazê-la até mim.” Então, na manhã seguinte, ao ser levada diante da prostituta, a dama brahmana expressou seu motivo interior: “Meu esposo está tão atraído por você que é meu desejo que você possa satisfazê-lo. Minha preocupação como sua esposa devotada é que ele fique satisfeito e esta é a aspiração dele. Portanto, eu desejo vê-lo feliz.” Então, a prostituta entendeu tudo e respondeu que, “Sim. Traga-o amanhã. Eu convido ambos a jantar em minha casa.” Isso foi contado ao brahmana e, no dia seguinte, eles vieram.

Tinham sido preparados muitos pratos apropriados para a ocasião. Foram servidas duas entradas. Uma era prasadam servida sobre uma folha de bananeira acompanhada de água do Ganges num pote de barro – com todos os alimentos puramente vegetarianos. Lado a lado, em potes de ouro e prata haviam tantas carnes e pratos muito opulentos que foram servidos numa bela mesa com assentos decorados. Entre os dois tipos de alimentos, um deles era sátviko, puro, e o outro era rajásiko, repleto de paixão. Então, com as mãos juntas, a prostituta convidou o brahmana e a esposa e indicou: “Esta é bhagavat-prasadam, e aqueles são pratos ricos preparados com carne. Qual deles você prefere segundo sua doce vontade.”

Imediatamente, o brahmana leproso escolheu a prasadam e começou a comer sua refeição. Depois de ter acabado de comer sua prasadam, a prostituta disse: “Sua esposa é como esta prasadam –sáttvika– e eu sou como todas estas coisas rajásikas –carne, pratos ricos, ouro e prata. Eu sou tão baixa e sua esposa é a mais pura entre as mulheres puras. Seu verdadeiro gosto é por esta prasadam sáttvika. Externamente, a carne pode ser muito cativante, mas internamente é muito impura, nojenta. E portanto você sente repulsão por ela. Assim, por que você veio até aqui por mim?” Então o brahmana caiu em si. “Sim, estou errado. Deus me enviou uma mensagem através de você. Meu desejo fugaz terminou agora e me sinto satisfeito.

Você é meu guru!”

Kaviraja Goswami citou esta história no Chaitanya Charitamrta. A dama casta foi servir a prostituta. Por quê? Para satisfazer a seu esposo.

Então, Radharani diz que, “Eu estou pronta a servir aquelas que se encontram no campo inimigo, se elas puderem realmente satisfazer a Krishna. Mas elas não podem. Contudo, elas ainda têm alguma reivindicação. Mas Eu difiro nesse ponto. Não é que Eu esteja preocupada que a Minha parte esteja diminuindo. Essa não é a Minha atitude. Sempre que surgem circunstâncias desfavoráveis, Eu penso que estão sempre surgindo de dentro de Mim (durdaiva vilasa); Eu não percebo nada corrupto que deva ser detectado externamente”.

Essa deveria ser a atitude de um verdadeiro devoto de Krishna. Com esta atitude, seremos capazes de perceber dentro de nós mesmos que, em última análise, tudo é parte do bem absoluto. Ainda que isso não é fácil, nossa energia deveria ser devotada apenas para coletar a vontade de Deus das circunstâncias externas. Desse modo, devemos ser cuidadosos de percebermos as coisas de tal modo que possam purificar nossa própria posição. E somos encorajados desse modo pelo Srimad Bhagavatam a olhar mais a fundo. Precisamos tentar olhar mais a fundo e, então, encontraremos nosso amigo; se formos liberais em nossa atitude em relação ao ambiente, não poderemos deixar de entrar em contato com o plano que é realmente liberal.

Essa é a Consciência de Krishna em seu alcance máximo. Se examinarmos profundamente a realidade com este tipo de visão, encontraremos nosso lar verdadeiro. Prahlad corajosamente lidou com todas as circunstâncias adversas e por fim saiu vitorioso. O cálculo do pai demoníaco de Prahlad sobre o ambiente acabou se mostrando falso e a visão mais profunda de Prahlad percebeu a realidade do modo correto. Ele viu que Krishna Se encontra em toda parte. A Consciência de Krishna comanda o todo.

Portanto, não devemos nos sentir desencorajados em nenhuma circunstância, por mais aguda que nos possa parecer. Krishna está lá. Por mais que as circunstâncias pareçam se opor a nós, na verdade não é desse modo. Se apenas pudermos desenvolver a visão correta, veremos o rosto sorridente do Senhor aparecendo por trás da tela. Isso é a Consciência de Krishna. Krishna é belo e está ansiosamente esperando para aceitar nossos serviços.

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