Conselhos e vida de uma Yogi Brasileira

Introdução:

Regina Shakti (também conhecida como Rohini Shakti dd), notória professora de Yoga no Brasil, conta neste relato a Greice Costa – editora da revista Yoga Journal Brasil – um pouco de suas ideias, ideais, práticas e realizações de uma vida dedicada a Bhakti Yoga. Este diálogo acabou virando matéria de capa da edição de Dezembro 2012.

Buscamos algumas das declarações que ela fez uma forma inspirada e sincera para leitores em busca destas qualidades.

Gotas de Shakti

Relato de Regina Shakti a Greice Costa

Regina shakti Yoga journal

” Regina Shakti quase me deixou louca. Desde que a conheci melhor em um retiro no seu Krisnha Shkati Ashram, imaginei-a inspirando os leitores da revista. Mas são tantas as suas ideias – e sérias – que foi praticamente uma viagem psicodélica absorvê-las e tentar organizá-las. Dona de escola de Yoga aos 21 anos, praticante desde os 11, performer no Chacrinha, quiróloga renomada, especialista em gastronomia vegetariana, professora em países como EUA, Inglaterra, Índia, Espanha, França e Indonésia, criadora de um projeto que disseminou Yoga entre 12 mil crianças e 600 professores nas escolas de Campos do Jordão, São Paulo (onde fica seu ashram). Regina, 57 anos e em fase mais reclusa tem muita história pra contar. Só de dar aulas as 6h30 tem em seu currículo 27 anos ininterruptos, sem falhar: “Adoro isso, tenho um tipo de orgulho de ter conseguido”, conta. Foram dois encontros e cinco meses de conversas por e-mail, a maioria para decidir sobre qual aspecto yóguico Regina escreveria ou que abordagem seria frutífera para a entrevista. Nada disso aconteceu. O que vocês verão são, na maioria, trechos de conversas livres por e-mail; e poucas vezes, respostas casuais para perguntas minhas. Explico para contextualizar suas palavras. Regina não passou uma tarde falando de si em uma entrevista formal. E não quis dar certeza em hora nenhuma: “O que o mundo precisa é doçura, não quero ter razão em nada. Ah, uma notícia que vai fazer você cair de costas… Não sou a mesma pessoa da foto da capa, não faço ideia de quem eu era naquele dia”. Não há como prendê-la em um tipo de reportagem ou estilo de Yoga. Melhor deixar-se levar por esta força da natureza.” – Greice Costa.

“Pode parecer confuso, mas para mim Hatha Yoga é como se fosse minha ginástica. Não tenho imenso prazer, não considero uma atividade espiritual, pratico por dever – no fim sempre acho maravilhoso, mas o Yoga que pratico como algo divino é o Yoga do sr Chaitanya. Ele viveu no Oeste Bengal, Índia, há 500 anos e é considerado pelos vaishnavas (devotos de Vishnu) uma encarnação e Krisnha. Existem sete livros chamados Chaitanya Charitamrita que contam a sua história. Estou fascinada sobre tudo que estou aprendendo sobre Yoga lá.

Sou discípula de Sua Divina Graça Srila Bhakti Raksak Sridhar Dev Goswami Maharaj e quando ele abandonou o corpo, passei a receber instrução de seu sucessor, o maravilhoso Srila Bhakti Sundar Govinda Dev Goswami Maharaj. Meu guru é o fundador da Sri Chaitanya Saraswat Math, que fica em Nabadwip, Índia – uma escola de Bhakti Yoga (o yoga da devoção) muito séria e respeitada. Nas duas últimas décadas viajei praticamente todos os anos para lá e às vezes para países que Sua Divina Graça estava visitando, como Inglaterra, Rússia e México.

Fazemos vários festivais durante o ano no ashram e o mais importante é na primeira lua cheia de março quando nasceu o Sr. Chaitanya – esses festivais são alegres, com muitas preparações deliciosas, troca de presentes e muito canto e muita dança.

Trajetória

Os meus últimos 20 anos coroaram os 20 primeiros de dedicação a aprender as técnicas para manter a boa forma do corpo, para respirar melhor e meditação. Dos 13 aos 25 anos fiz todos os cursinhos, workshops, palestras e afins que vi na frente e que minha tia recomendou.

Isto não estava mais me bastando, mas continuava dando aulas – já era conhecida no meio do Yoga e dava o meu recado na sociedade, pregava o vegetarianismo…

Por outro lado, desconfiava de bonzinhos e monges. Tinha resistência em hare krisnhas e todas as linhas que não praticavam a elegância do corpo. Tinha resistência com gurus também, não queria obedecer a ninguém. Tentando dar uma reciclada na vida, fui aos Estados Unidos. Comecei a dar aulas e os americanos perguntaram quem era meu guru. Ali, desejei ter um.

Nesta busca, conheci devotos que moravam nas florestas de Oregon e pareciam ter uma consciência ampla sobre o que é essencial. Adoravam a foto de seu guru com guirlandas, incenso, abanos. Resolvi conhecer este guru na Índia.

Foi minha grande fortuna ser aceita na dimensão dele. Nunca consegui expressar meus sentimentos quanto a este encontro, as palavras são sempre poucas, parecem nada diante da sua grandeza.

Beleza

Desde pequena, gosto de arrumar a casa, fazer arranjos de flores… Depois que arrumava a minha casa, arrumava a dos vizinhos. Sou famosa por transformar uma tapera em castelo. Você pode notar isso no ashram.

Eu enfeito os degraus das escadas, incremento os jardins, junto restos de tinta, pinto o que está desbotando, compro pedaços de guarda-roupa em brechó e coloco como guarnição nas portas… Gosto de fazer cenários, de celebrar a vida.

Gosto também de cuidar da aparência das pessoas, consertar a coluna, abrir o peito, fazer tranças…

O que deixa o olhar bonito é ver qualidades nas pessoas, o que deixa a boca bonita é o sorriso e o que nos deixa em forma é dividir a comida.

De tudo o que eu gosto de embelezar, atinjo o auge quando decoro o altar do sr. Chaitanya. Tenho uma espécie de êxtase colhendo as flores e oferecendo para ele com minha mente presente no ato. Depois de limpar e decorar tudo, mergulho nas oferendas e entrego junto o meu afeto e consideração. É o que eu vou levar dessa vida. Me emociono com o belo.

Adoro o ashram, nunca gosto de sair daqui, é o meu lugar no mundo, nunca vi um ashram tão lindo. Todo setembro as flores se manifestam com muita força e trazem alegria, pássaros e inspiração.

Vacas

Com um sentimento especial, comprei R$500 de ração extra pras vacas por que o pasto está muito seco. Passei o resto do dia bem, sentindo que fiz algo auspicioso…

No dia seguinte, minha vaca Sundari veio até a porta da minha casa (isso não é normal). Esse tipo de sentimento e compreensão é pra mim o resultado de muita prática de yoga. Gostaria de citar a importância de para os yogis de adorar e proteger as vacas. Vários semi-deuses moram nelas.

Não é sobre ser vegetariano que estou falando, Hitler era vegetariano… Ser vegetariano faz bem para saúde, e é apropriado para quem pratica Yoga com seriedade. Estou falando de adorar a vaca, escová-la, alimentá-la, fazer doações, conversar com ela. Achamos que cumprimos com o ahimsa (não violência) porque somos vegetarianos. Ainda estou no primeiro passo do Yoga e nem ahimsa conquistei.

Gostaria de ser pacífica, delicada, humilde e tolerante. Ainda não tenho essa realização… mas vou ter!”

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